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  PALAVRA DA PARTEIRA
Ana Cristina Duarte
 

TCHAU PRO MATRE

Um círculo perfeito acaba de se fechar em minha vida, desses que só conseguimos com um compasso bem calibrado, ponta afiada, firme. O ano era 2002 ou 2003. Eram meus primeiros trabalhos como doula. Ninguém no Brasil sabia o que era uma doula. A cada passo dado eu precisava explicar qual era minha função. Eu não matava um leão por dia. Eu tinha que convencer vinte leões por dia que eu não era uma presa saborosa, que me deixassem em paz.

Era meu terceiro trabalho como doula na Pro Matre, maternidade chique das elites paulistanas, com 90% de cesarianas, quase todas marcadas. Nos dois primeiros trabalhos eu passei um pouco desapercebida pela enfermagem, foram partos noturnos ou em fim de semana, não me lembro bem. As auxiliares de enfermagem se encantaram com aquela função nobre de ajudar a mulher, fazer massagem, encorajar, dar sugestões que a ajudassem a ter o parto natural que tanto desejavam.

Nesse terceiro parto, no entanto, as coisas complicaram. A mãe, Cristina, queria fazer um documentário sobre a situação da assistência ao parto no Brasil. Ela e seu marido eram produtores de vídeo. Na maternidade era proibido (e ainda é) um casal filmar seu próprio parto. Então o casal contratou o serviço de vídeo da maternidade e pediu que o operador de câmera captasse o processo, as massagens, as posições alternativas, o suporte, tudo o que precisasse, para mostrar como era a atenção ao parto humanizado.

Para garantir que esse primeiro parto fosse como eles desejavam, tinham um obstetra muito aberto, que aceitou o plano de parto e prometeu atender todos os pedidos, desde que tudo estivesse bem com mãe e bebê. A idéia era que fosse um parto o mais natural possível, humano, suave, delicado. Durante o processo uma operadora de câmera entrou várias vezes e filmou o que acontecia naquela sala. Mas começamos a perceber uma tensão diferente. Uma chefe de enfermagem começou a entrar e a sair da sala, com sua cara rebocada de base, olhos artificiais de vampira, fiscalizando tudo o que acontecia. Parecia que estávamos usando drogas, de tão inamistosa que ela parecia. Quando não era ela, uma outra enfermeira ou auxiliar ia e voltava, nervosa.

Eu sou uma pessoa ingênua (até hoje) e não compreendia. Não compreendendo, continuei meu trabalho. O parto transcorreu muito bem, e o final foi apoteótico, com 9 testemunhas entre médicos, enfermeiras, auxiliares cercando aquelas úlltimas cenas do parto. Nasceu uma linda menina, saudável, imediatamente levada ao berço aquecido para aspiração, carimbos, colírio, "the full pack". Fui embora com a missão cumprida, sob o olhar vigilante da vampira.

No dia seguinte começou a confusão. O casal fora informado de que não teriam acesso ao material flmado, que o hospital havia confiscado as fitas. Eu fui informada de que nunca mais poderia atender partos, nem eu, nem qualquer doula. Quem quisesse acompanhamento, que contratasse uma enfermeira do hospital. Aquele era meu ganha pão, eu fiquei desesperada. Se não podia trabalhar lá, que era um dos únicos hospitais com sala de parto, qual hospital indicaria às minhas clientes? Como sobreviveria? Eu não podia voltar atrás, não era mais bióloga, eu era doula!

Armei uma pasta completa de documentos mostrando a importância das doulas no parto, o manual do Ministério da Saúde, que já falava em doula na assistência, as recomendações da Organização Mundial da Saúde, e solicitei uma reunião com o diretor da maternidade, na época um cardiologista. Ele, do alto do seu conhecimento em obstetrícia, partos naturais e doulas, recebeu-me por dez minutos, olhou por cima a papelada, fechou a pasta e me devolveu. Disse que a decisão não cabia a ele, mas levaria as informações compreendidas Ali eu já percebi a guerra perdida. Ainda liguei duas ou três vezes tentando um espaço para diálogo, mas as portas estavam fechadas para qualquer doula.

Um outro hospital, logo em seguida, inaugurou uma sala de parto humanizado, e felizmente nunca mais precisei pisar na Pro Matre. As doulas estavam de fato proibidas, mas éramos (e ainda são) bem recebidas nesse outro hospital, onde a maioria das mulheres que querem um parto normal acabam indo ter seus bebês. O novo hospital ficou famoso pelas facilidades criadas e as equipes de parto humanizado aderiram em bloco. Estava resolvido o nosso problema. Eu podia trabalhar em paz, as mulheres podiam ter seus partos como queriam, e podiam inclusive filmá-los à vontade.

Esta semana, mais de oito anos após aquele terrível parto, recebo essa mensagem, que me fez palpitar o coração:
"Vou deixar registrado minha imensa gratidão por ter um dia lhe conhecido e dizer que vc foi fundamental na minha decisão pelo parto domiciliar da minha primeira filha.Trabalhei por anos como Video Maker e até filmar um parto natural doulado por você com muita coragem, achava, como todos lá dentro, que só algumas mulheres podiam parir. Durante as 6 horas que acompanhei o parto, só quis aquilo pra mim. Quando engravidei anos depois, já morando em outra cidade e não mais trabalhando com vídeo, fui atrás de uma parteira e me deparei com informações que pra mim viraram mantra para toda vida.

Quebrei com uma geração de cesáreas na minha família que se achava muito sabida de partos, pois metade dela trabalhava filmando partos em grandes hospitais em São Paulo e hoje estou aqui com 3 filhos lindos, paridos e amados. [...] Parabéns pelo seu trabalho e que seu caminho se amplie cada vez mais! Pra você ter uma idéia, o vídeo que fiz do parto que você doulou, era para ser usado em um documentário que o pai ia produzir, mas no dia seguinte após berros e ameaças tive que entregar as 6 fitas gravadas para eles que fizeram a seleção das imagens e estão até hoje com o material. Na época era muito nova e não soube lidar com isso, porque se fosse hoje teria copiado antes de fornecer e ajudado no documentário."

Cada palavra que eu li foi a nota de uma música de doçura ensurdecedora. O círculo se fechou. Se houve um tempo em que eu ambicionei percorrer aqueles corredores assépticos gritando aos quatro ventos sobre injustiça e prepotência, sobre ignorância e afastamento das evidências, hoje eu consegui, finalmente, virar as costas para a Pro Matre e dizer adeus.

Digo adeus com a leveza de uma pluma, que de tão leve e de tantas voltas, acabou acarinhando uma outra pessoa, em um outro lugar, sem que eu mesma soubesse. Três maravilhosos partos em troca de uma experiência traumática como doula. Valeu cada minuto de cada noite mal dormida. Valeu cada lágrima e cada soluço pelas injustiças. Valeu pelas seis fitas desaparecidas. Valeu por Cristina, seu marido e sua filha, e também para que acontecesse seu parto seguinte, domiciliar.

Sonho com o dia que cada doula possa também dizer com a boca cheia: "nesse lugar eu não atendo, sugiro a Maternidade X, onde você será tratada com respeito". Sonho com o dia que cada gestante que deseje um parto transformador possa dizer: "nesse lugar eu não entro, afinal quero um parto, não uma cirurgia".

Para mim, no entanto, círculo se fechou. Aleluia!
Tchau, Pro Matre!

Ana Cristina Duarte, livre e leve

ATENÇÃO: Esse texto não pode ser reproduzido na íntegra sem autorização. Para divulgá-lo em seu blog, copie os 3 ou 4 primeiros parágrafos e coloque logo abaixo:

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______coloque aqui o link original_____ "


Ana Cristina Duarte é obstetriz, coordenadora do GAMA e escreve por amor e diversão sobre as questões do nascimento. Atende partos humanizados hospitalares e domiciliares com algumas equipes de São Paulo e Campinas, e é co-autora do livro Parto Normal ou Cesárea? O que toda mulher deve saber (e homem também) - Editora Unesp
 
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