Ir para a Página Principal 
 Artigos Artigos 
 Serviços para Profissionais Para profissionais (cursos, oficinas, consultoria)
 Serviços para Gestantes Para Gestantes (cursos, yoga, atendimento)
 Produtos Produtos
vídeos, livros,
e outros
 Eventos Histórias de Parto
relatos de mulheres especiais
 Outros Links
Cadastre-se
 
  PALAVRA DA PARTEIRA
Ana Cristina Duarte
 

CARTA AO MEU MÉDICO

Ao Dr Vicente Bagnoli
Professor Livre Docente de Ginecologia e Obstetrícia na USP

Há 15 anos minha filha nasceu por suas mãos, através de uma cesariana desnecessária. Após um relacionamento médico-paciente de 14 anos, desde a adolescência, mais 9 meses em que disse ao senhor que eu gostaria de ter um parto normal, eu acabei na mesa de cirurgia.

Te liguei de manhã, avisando que perdi o tampão e sentia algumas cólicas. Você me mandou ir para a Pro Matre. Fui e estava em pródromos de trabalho de parto. A enfermeira me examinou e depois disse que você viria falar comigo pessoalmente. Cerca de 40 minutos depois você chegou e disse que meu colo era grosso, duro e posterior, o que significaria um longo trabalho de parto, e que poderia acarretar em sofrimento fetal para minha filha. Aconselhou uma cesárea imediata, para assim evitar que ela nascesse mal.

Eu, do alto da minha inocência, e crendo que você jamais diria algo para me enganar apenas para facilitar seu feriado de Corpus Cristi, aquiesci. Eu não queria, de fato, provocar dano à minha filha. Uma hora depois você se despedia de mim e ia atender o dia cheio do consultório.

Minha cesárea não foi feita pelos 200 reais do plano. Eu não tinha plano de saúde, paguei particular o correspondente a US$ 3500. Uma fortuna alta que eu e minha família tivemos que buscar. Não era nem uma questão de remuneração, não é mesmo?

No dia seguinte, na visita pós parto, você me disse:

- Eu não falei que a cesariana era mais tranquila?

Só agora eu só tenho condições de te responder sem chorar, sem engasgar em lágrimas e soluços:

- Não, Dr Vicente, você não disse, e não, não é mais tranquilo.

Passei quinze dias mal conseguindo me segurar em pé, tendo que dar de mamar a uma criança que eu nem conseguia segurar, por causa das dores. Porém passei dois anos acreditando que eu tinha um "problema de colo duro, grosso e posterior".

Na gravidez seguinte me eduquei, descobri que fui enganada, aprendi que colos são duros, grossos e posteriores antes do trabalho de parto começar, procurei outro médico, esse com fama de atender partos normais, e finalmente pude ter o parto normal que eu já queria quando era sua paciente. Com o mesmo colo grosso, duro e posterior, nas primeiras horas de trabalho de parto.

Depois disso virei uma ativista ferrenha contra as cesarianas enganadas. Há 13 anos eu milito pelo direito das mulheres não serem operadas sem necessidade, para conforto de seus médicos. Capacitei-me como doula, atendi mais de 400 partos como doula.

Não bastante, resolvi ser parteira-obstetriz. Fiz o curso na USP, me formei em 2008 e hoje atendo partos naturais domiciliares e hospitalares, com equipes que têm entre 85 e 90% de partos normais.

Minha vida se transformou para melhor, para muito melhor. Graças à violência obstétrica que eu e minha filha sofremos em 1997, hoje eu sou outra mulher. Eu posso calcular por alto que, graças à cirurgia que me foi imposta naquele dia, eu já devo ter evitado que umas 10 mil caíssem na mesma armadilha, através dos meus textos, website, meu livro publicado pela UNESP*, minha militância.

Portanto hoje, 15 anos depois da cicatriz deixada por seu bisturi, eu posso dizer com um sorriso no rosto:

Muito obrigada!
Ana Cristina Duarte
* Ah, 'meu" livro? Ele é uma co-autoria, cuja primeira autora é a Simone Diniz. Curiosamente ele se chama:
"Parto Normal ou Cesárea? O que toda mulher deve saber (e homem também)" - Ed. Unesp

ATENÇÃO: Esse texto não pode ser reproduzido na íntegra sem autorização. Para divulgá-lo em seu blog, copie os 3 ou 4 primeiros parágrafos e coloque logo abaixo:

"Para ler o texto completo, clique no link:
______coloque aqui o link original_____ "


Ana Cristina Duarte é obstetriz, coordenadora do GAMA e escreve por amor e diversão sobre as questões do nascimento. Atende partos humanizados hospitalares e domiciliares com algumas equipes de São Paulo e Campinas, e é co-autora do livro Parto Normal ou Cesárea? O que toda mulher deve saber (e homem também) - Editora Unesp
 
Copyrights: GAMA - Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução das imagens ou do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita.
Quem Somos
Onde Estamos
Mapa do Site
Fale Conosco
GAMA - Grupo de Apoio à Maternidade Ativa - Rua Natingui, 380 - Vila Madalena - 05443-000 - São Paulo, SP
Telefones: clique aqui - E-mail: CLIQUE AQUI