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Relatos de Parto
Nome: Mariana Betioli

 

O Nascimento de André

Demorei um pouco, mas depois de 30 dias, aí vai o relato do meu parto....é proporcional a minha demora.

Primeiro vou me apresentar: sou Mariana Betioli, casada com César, mãe do André, tenho 24 anos, trabalho no Colégio Global/Escola Globinho.

Quando soube que estava grávida perguntei ao meu ginecologista sobre o parto. Ele me disse: Olha 80% das mulheres fazem cesárea por causa do períneo (tudo culpa dele!!!) pra não ter que operá-lo depois. As que querem normal são as mais alternativas: educadoras físicas, praticantes de yoga...Mas depende de quantos filhos você deseja ter. Se forem uns 4, você não vai fazer 4 cirurgias.

Eu deveria já ter caído fora, mas na minha inocência pensei: Que bom, ele faz tanto cesárea quanto parto normal depende do que eu escolher.

Não é fácil enxergar o óbvio, trocar de médico, abrir mão do convênio médico e revirar a poupança.

Assim fui levando até a 28ª semana e nada mais ele tinha dito sobre o parto, apenas media pressão, ouvia o bebê, pedia ultra-som (fiz uns 6), falava de cremes para estria/celulite, vitaminas e de como eu havia engordado. Assim terminaria a gestação com 40Kg a mais, disse ele. Eu engordei 16 Kg, mas estava muito preocupada.

Fui me informando e decidi que queria não só parto normal, mas sim o natural. Fui conhecer as maternidades (Sta Catarina, Pró Matre e São Luiz) e realmente as atendentes só falam bobagens. Optei pelo Sta Catarina porque conhecia mulheres que gostaram de lá. Inscrevi-me no curso de gestante e aí começou minha agonia.

Soube que era rotina fazer a episiotomia, tricotomia, tomar anestesia e todas as "ias" do pacote, além disso o bebê seria "reanimado", mostrado pra mim e ficaria no mínimo 4 horas no berçário, seria pingado um colírio e dariam uma injeção nele, perguntei se ele não mama quando nasce, e a moça me disse com cara de quem viu um E.T. que ele mamaria quando fosse pro quarto.

Minha paciência esgotou, nunca mais voltamos ao curso e vi que essa maternidade não era o que eu imaginava.

Entrei em contato com a Ana Cris e ela me disse que era a 2ª melhor para parto humanizado, mas dependia do médico e algumas coisas realmente não poderiam mudar. A essa altura eu já tinha desistido dele, mas não tinha nenhum outro. Foi quando ela disse: Por que você não tem em casa?

(Minha avó foi parteira, minha mãe um pouco alternativa no item parto. Eu nasci de parto de cócoras no hospital pelo método Leboyer - novidade naquela época, minha irmã nasceu em casa por opção e a médica chegou depois, meu irmão nasceu de cesárea depois de 3 dias de trabalho de parto com 4,700 Kg e eu até então falava que minha mãe tinha sido inconseqüente.)

Isso ainda existe? Pensei por que não? Desligamos o telefone e chamei o César, perguntei o que ele achava, ele disse que se fosse pro bebê não passar por tudo aquilo, seria uma boa alternativa. Eu tinha que decidir e ele me apoiaria. Disse que confiava em mim. Pesquisei muito e estava cada vez mais decidida, fui a 2 encontros no GAMA. Fiquei mais segura e confirmei minha decisão. Só contei p/ meus pais, meu sogro e irmãos. Não queria explicar tudo para as outras pessoas, não queria ninguém me chamando de louca, tirando minha confiança e zicando meu parto.

Conversei com dois médicos humanizados antes de chegar no Dr. JK (com 32 semanas). Houve uma empatia logo na 1ª consulta (alias, foram só 3 consultas).

Estava de 37 semanas e 3 dias de férias na praia e retornei no sábado à noite, pois trabalharia na 2ª feira. Chegamos a 1h30 da manhã, dormia pouco, acordava toda hora pra ir ao banheiro. Às 4h30 caiu o tampão, acordei o César, peguei meu livro e li que o parto poderia acontecer até um mês depois, dormimos novamente. 5h30 levantei e um líquido começou a escorrer pela perna. Acordei-o novamente, peguei o livro e vi que agora era sério, não demoraria muito. Liguei p/ meus pais que ainda estavam na praia e vieram pra cá. Detalhe: eu não tinha nada pronto, nem pro parto domiciliar, nem roupa lavada pro bebê, nem fralda ....

Telefonei pro Dr J. que me pediu alguns exames. A minha doula tinha vestibular e talvez não chegasse, mas eu estava mais tranqüila do que eu esperava estar.

Fui pro Sta Catarina e passei a manhã toda lá. Domingo o laboratório não funciona, não tinha nem papel higiênico no banheiro, e eu perdendo líquido. Mandavam-me cada hora para um andar, ligavam pro convenio, pro Dr J.. Depois de 2 horas a enfermeira queria me botar numa cadeira de rodas porque eu estava com a bolsa rota. Eu me irritei e falei: Vocês me fazem rodar o hospital inteiro, ninguém me atende, o laboratório não resolve nada, tenho que pagar um exame que o meu convenio cobre e agora você vem com essa cadeira. Fui fazer o último exame, estava deitada na maca e tentava disfarçar a cada contração pra que eles não insistissem em me internar.

Eu não via a hora de chegar na minha casa, eram 12h30 e as contrações começavam a ficar mais dolorosas. O César e minha irmã anotavam todas e telefonavam pro Dr J. de hora em hora. Tive contração no elevador cheio de gente, na fila do estacionamento, só no carro foram 3.

Minha casa estava cheia de gente providenciando o que eu ainda não tinha comprado (eu, César, meus pais, irmã, irmão, 2 cunhados, cunhada, prima, avó, tia, sogro, além da equipe que chegou depois J., M., Andrea e doula), alguns ficaram sabendo que o parto seria lá só na hora.

Cheguei +- 13h30 e fui direto pra minha cama. Fiquei deitada de olhos fechados concentrada na música e a cada contração eu tentava relaxar todos os músculos para aliviar a dor, sabia que precisaria de energia mais tarde.

Encheram a banheira, compraram óleos, ofereceram compressas, mas eu só queria ficar quieta, sem barulho, não queria que andassem pelo quarto ou apoiassem na cama. Já estava na "partolandia".

Os médicos não tinham chegado e ouvia a preocupação das pessoas, minha avó (que foi parteira, mas seu ultimo parto deve ter sido há 30 anos) veio e disse: Fica tranqüila, se o Doutor não chegar a vovó ta aqui. Mas eu não estava nem aí, sabia que o bebê não nasceria naquela hora e estava pronta pra parir sozinha se precisasse. Não foi necessário, todos chegaram em seguida.

Eu bebia muita água e a minha doula perguntou se eu já tinha feito xixi e disse que a bexiga cheia poderia atrapalhar. O último que fiz foi umas 11h, eu não tinha vontade, mas na hora levantei e fui ao banheiro.

Quanto mais fortes eram as dores, mais feliz eu ficava por saber que eu estava progredindo e eu sabia que para que a dor passasse era necessário que ela começasse.

Eu relaxava tanto entre as contrações que literalmente sonhava por 1 ou 2 minutos, sonhos de sonos profundos, esquisitos, estava em outro planeta. As vezes achava que estava delirando. Tinha medo das coisas não acontecerem como o previsto e ter que ir pro hospital. Meu único medo desde o início era ter que ir pra lá.

Sentia um prazer quando a contração começava a acabar. Perdia a noção do tempo, só sabia que ainda estava de dia.

Não fui examinada, não sabia com quantos centímetros eu estava. Pensava: mas e se eu não estiver com dilatação? Depois relaxava, se ninguém examinou é porque não precisa. Tinha muita confiança naquela equipe. A Dr. M. ouviu os batimentos do bebê umas 3 vezes e disse que estava tudo bem.

De repente senti aquela força pra começar a empurrar, ainda estava deitada de lado, "saí da partolandia e desci pra Terra" senti uma movimentação pelo quarto, os médicos ajeitando as coisas. Percebi que estava começando a acabar. O momento que eu mais esperava estava chegando. Curtia cada instante.

Eu queria muito pegar o André quando ele nascesse. O César me falou para ir pra cadeirinha porque naquela posição eu poderia pegá-lo.

Meus olhos que permaneceram fechados durante horas, se abriram, passei a perceber todo o ambiente, a fisionomia de cada uma das 8 pessoas que estavam na minha frente, via minha prima e irmã apreensivas, chorando encolhidas num canto, os 3 médicos e a minha doula com uma expressão tranqüila, minha mãe e o César me incentivando e servindo de apoio para minhas costas.

Foram +- 30 minutos de expulsivo. A dor agora era diferente, eu sentia uma ardência, já não doía como antes. Sentia a cabecinha dele passando pelos meus ossos. Senti que na contração seguinte ele sairia, mas o telefone tocou, assustei e automaticamente eu parei de fazer a força. Mas logo em seguida às 17h45 coloquei as mãos para baixo, empurrei e senti o André saindo de mim, segurei-o, Dr J. tirou uma circular de cordão e coloquei o André no meu peito. Ele chorou um pouco e eu chorava de emoção e alegria. Colocaram toalhas sobre ele e então percebi que ninguém havia esfregado, aspirado, tirado meu filho de mim. Assim ficamos por alguns minutos depois deitei novamente na cama com o André nos meus braços para que eu cortasse o cordão e expulsasse a placenta.

A sensação era de vitória, de batalha vencida. Batalha mesmo, contra padrões estabelecidos que eu quebrei, de fazer diferente de todas as pessoas. Fiz do meu jeito.

Consegui sozinha. Conheci pessoas que tiveram a grandeza e foram capazes de abrir mão de ser o protagonista e fazer o papel de coadjuvante, ou até figurantes na minha história. A elas serei eternamente grata por me deixar sentir a dor e o prazer de parir. De me fazer descobrir o quanto sou capaz. Hoje me sinto uma mulher completa e poderosa, sei que tenho força pra enfrentar o que vier e sei que as pessoas que amo, confiam em mim, me apoiarão e estarão do meu lado.

Agora eu explico e falo com orgulho que o André nasceu em casa de parto natural. Muitas mulheres, mães de 2, 3 filhos vieram me perguntar como é a sensação. De louca passei a ser corajosa. Como passar por essa vida sem sentir essa emoção por completo.

Eu acho que ser mãe envolve mais do que estrias, enjôos, noites sem dormir. Devemos assumir a responsabilidade por completo, assumir a maternidade. Se fomos capazes de engravidar, devemos ser capazes de parir.

Nós mandamos no nosso corpo, na nossa mente, controlamos a nossa dor. Acredite e confie em você, seu parto será como você acreditar que vai ser. Você pode se você quiser.

Papais: confie e apóie sua mulher, não a prive de ter o parto que ela sonha viver.

Capítulo curiosidade:

· Teve um momento em que o Dr. J. perguntou se eu queria ver o cabelinho dele aparecendo, disse que sim e mandei pegar um espelho no porta luvas do carro, porque ninguém achava. Já estava empurrando e sentindo que estava quase, quando olhei e vi o cabelo por um buraquinho tão pequeno, pensei que ainda levaria horas pra chegar nos 10 cm. Tonta eu de achar que ia ver tudo. Pedi pra tirar o espelho, não queria ver mais olhar, só me concentrar na expulsão.

· Evacuei durante o expulsivo e não estava nem aí.

· Uma hora depois que o André nasceu me deu uma fome e uma vontade louca de ir pro chuveiro. Tomei banho, lavei o cabelo e estava pronta pra outro.

· Tive uma laceração que nem senti e não precisei levar ponto. Tinha mais medo disso do que do parto!

· Pérolas que ouvi depois do parto: Nasceu em casa porque não deu tempo? Ah, sei, mas eles trazem uma ambulância UTI que fica na porta.... Pelo menos você tomou a anestesia peridural, né?

Essa foi a minha história, um pouco longa demais...

Um beijo para todos

Mariana Betioli, mãe do André que hoje faz 1 mês.

Veja o relato do pai
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