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Relatos de Parto
Nome: Andrea Carvalho

 

Bom, demorou um pouco até eu conseguir concatenar minhas idéias para escrever este relato, mas finalmente consegui "pari-lo", após algumas lágrimas pelas lembranças que ele trouxe....

Tenham paciência, pois é muuuito longo..... se há uma coisa que realmente gosto de fazer é escrever..... e, além disso, não é apenas um relato de parto, como também uma reavaliação da minha gravidez....

Bom, peguem uma xícara de chá, sentem e vamos lá.....

Tudo começou no dia em que minha vida mudou..... aquela segunda feira em que me decidi a fazer o Beta, só pra ter a confirmação de algo que no fundo sabia ser líquido e certo: estava grávida.... naquele momento eu só sabia chorar e me desesperar.... estava grávida de meu namorado, com quem eu tinha acabado de reatar, desempregado, mais novo que eu e que meus pais não gostavam! Passei uma semana assim, sem saber o que fazer, mas no fundo sabendo: sempre fui contra abortos e ia ter o bb, custasse o que custasse..... com o apoio do Ro, contei aos meus pais... minha mãe foi o pior, demorou para que ela engolisse a historia, mas aos poucos a situação foi mudando.... e hj ela é louca pelo Ian

Passada esta fase, o seguinte foi lidar com minhas emoções, que estavam à flor da pele... me sentia feia, gorda, horrorosa..... minha barriga custou a aparecer, sempre foi pequena, parecia mesmo que estava acima do peso.... isso mexeu demais com minha cabeça.... eu, sempre preocupada com a forma, rata de academia, sempre bonita e bronzeada agora "gorda", com o cabelo tricolor (só fui tingir no 5o mês), sempre cansada e sem disposição pra nada.... chorava até na novela! Tinha crises emocionais sem fim...... Auto-estima? O que era isso?

Demorou um pouco pra minha ficha cair que eu mesma estava tentando me dizer que algo estava errado, faltava alguma coisa....

Com minha sede de saber, de informações, passei a vasculhar a net em busca de algo.... o quê? algo que me completasse, me "curasse".....

E foi assim que descobri os "blogs" e um fórum de discussão de grávidas em um site sobre bbs... foi só a ponta do iceberg.....

Passei a conversar com as grávidas sobre dúvidas, dicas de beleza, etc... criei um blog e conheci várias pessoas através dele...... ávida por mais e mais, foi numa simples mensagem que achei o que eu queria..... me lembro como se fosse hoje.... foi no fórum..... uma mulher conversava com outra sobre tipo de parto e uma delas disse que queria pque queria cesárea e nenhuma xiita de parto natural humanizado ia faze-la mudar de idéia..... isso me acendeu.... parto natural humanizado???? Como assim???? Do que ela estava falando?? Busquei a net, minha melhor amiga nessa hora e passei a devorar cada artigo, cada reportagem, cada relato de parto, até que cheguei na minha doula....

Nessa época uma coisa eu já sabia: a médica que estava fazendo meu pré-natal (indicação de uma amiga) com certeza não iria fazer meu parto.... eu já até havia "fugido" dela, não agüentava mais ficar 2horas no consultório pra ser atendida e ela nem saber quem eu era... a única coisa que ela me dizia era: não coma frituras, refrigerantes e doces (apesar de eu dizer toda vez que não gostava disso)..... o Ro dizia que parecia que estavam atendendo gado.....

Minhas conversas com a doula no início foram sobre uma indicação de médico do convênio em quem eu pudesse confiar pra fazer um parto normal..... mudei de médico e, finalmente feliz depois de um bom período de turbulências, entrei para a lista e conheci todas vocês, minhas amigas fiéis e companheiras pra tudo.....

Mas a minha alegria durou pouco

A primeira surpresa veio com o ultra de 32 semanas: o bb estava sentado, pélvico....

Todos me diziam que havia tempo pra ele virar, pra eu não me preocupar.... mas acho que coração de mãe sabe muito mais..... minha preocupação aumentava a cada semana.... de repente eu via todo aquele sonho que eu havia construído de ter um parto normal ruir como um castelo de areia...... até que a Débora conversou comigo.... eu não a conhecia direito, não sabia o que havia acontecido com ela, não sabia que havia a possibilidade de se fazer um parto normal pélvico.... depois que falei com ela uma paz me invadiu como um bálsamo..... eu sabia agora que era possível, não com o meu médico, mas era possível..... mas primeiro eu ia tentar tudo pra ajudar o bb a virar.... todas as noites quando chegava do trabalho eu deitava na cama, colocava o quadril em cima de um monte de travesseiros e fazia massagem, conversava com o Ian, pedia pra ele dar a cambalhota, promessa pra santo, reza brava..... tudo em vão.... passei a tomar a pulsatila .... até de ponta cabeça eu ficava... e nada!

A segunda surpresa veio em outubro, logo após o feriado, quando levei o maior susto da minha vida: fiquei 3 dias sem sentir o bb mexer.... por conselho da minha doula fui fazer uma cardiotoco, cujo resultado, na avaliação dos médicos de plantão, não era satisfatório.... meu médico foi contatado e resolveram me internar para fazer investigações.... nessa época eu estava de 35 semanas..... o medo foi tomando conta de mim como se fosse uma capa me abraçando apertado...... fui fazendo uma bateria de exames que não tinha fim, e no dia seguinte me colocaram em jejum..... aí sim eu entrei em pânico..... não queria de jeito nenhum que me fizessem uma cesárea com 35 semanas..... a imagem de meu bb cheio de tubos numa incubadora na UTI me perseguia como o pior pesadelo.... e algo me dizia que eu não deveria concordar com aquilo, todos os meus instintos gritavam que apesar dos resultados dos exames, aquilo estava errado.... tudo o que eu queria era sair daquele hospital, ter a chance de consultar uma segunda
opinião.... naquele dia eu chorei desesperadamente.... a única pessoa que me apoiou naquele momento foi o Ro (além da minha doula, que me ligava diariamente e teria feito um resgate relâmpago, se preciso).... meus pais diziam que eu estava louca, fora de mim, que o médico é que sabia o que estava fazendo e que eles fariam qualquer coisa pra me manter no hospital, na marra......... cheguei até a me questionar: será que eu estava sendo egoísta, em querer o parto que EU havia sonhado, em prejuízo do bb?? implorei a Deus que me ajudasse... e Ele me ajudou..... 3 dias depois eu tive alta com observação.... o médico queria esperar até a 37a semana para fazer a cesárea.....

Abracei a chance e fui correndo buscar a avaliação do Dr J., esta pessoa abençoada, um anjo em forma de médico que me disse que eu podia sim ir até o fim da gestação..... não tenho como traduzir o alívio e a paz que eu senti..... aliás, o dr J. tem esse dom, de fazer com que as pessoas se sintam especiais, amadas, e em passar tranqüilidade.... saí da consulta renovada, com as baterias recarregadas.... troquei de médico definitivamente e passamos a nos preocupar em tentar ajudar o Ian a virar.... fui fazer mocha, a acupuntura especial para isso, onde se usa um bastão (tipo incenso) aceso aquecendo o dedinho do pé (uma das piores dores da minha vida)..... cheguei lá tão esperançosa..... me lembro de estar deitada na maca sentindo as agulhas e a queimação e rezar a Deus pra ajudar o Ianzinho, eu agüentava o tranco.... mas não foi assim, ele não virou.... saí de lá arrasada, destruída.... chorei muito, de puro desespero..... lembro de chegar no escritório e enviar uma mensagem pra lista,
vocês me consolaram naquele dia.... depois disso eu tive a certeza, no meu coração, d que o Ian não ia virar, não importa o que eu fizesse, que deveria ser assim.... o dr J. havia sido bem claro: o parto era possível, mas a qualquer momento poderia reverter numa cesarea... mas pelo menos eu teria a chance de tentar....

Foi aí q, na minha última semana de trabalho antes de entrar de licença a minha doula me passa um e-mail, super empolgada, que havia estado com uma parteira que tinha exercícios que eram tiro e queda pra virar bb, mas que eu precisava ficar 2 dias em casa.... topei.... foram 2 dias de muito exercício, engatinhar no chão (meus joelhos ralaram), quadril pra cima, etc.....

Resultado? Nadica de nada..... eu já estava de 40 semanas....

Que que eu ia fazer? Meu filho queria nascer de bunda pro mundo!

Mas a minha doula ficou preocupada.... aí ela entendeu o que eu queria dizer nas minhas mensagens preocupadas sobre o bb não mexer muito.... ela massageava a barriga pra lá e pra cá e o Ian nem aí.....

Aí o dr J. pediu exames... fazer mais cardiotocos..... e um ultra .... "just in case".....

Os resultados não eram muito animadores.. A essa altura já sabíamos que havia algo errado, mas não sabíamos precisar exatamente o que..... chorei na consulta, o dr J. me perguntou o que eu queria fazer: esperar ou ir pra cirurgia? Perguntei a ele: o que a sua intuição lhe diz? Ele disse: vamos esperar mais um pouco..... eu tbm queria esperar....

Nunca vou esquecer esse dia

Era uma quinta feira

Sou espírita, e, como estava abalada, resolvi ir ao centro para me acalmar, buscar paz de espírito..... A palestra era justamente sobre bbs excepcionais e bbs que morrem ao nascer...... ninguém pode avaliar o que eu senti naquele momento..... fragilizada como estava, desatei a chorar copiosamente, o Ro ao meu lado me abraçando.... tive a certeza de que havia algo errado com o Ian.....

Chorei aquela noite toda.... as pessoas me diziam que era apenas coincidência, mas eu não acredito em coincidências.... tudo tem motivo e razão de ser.....

Passado o desespero, resolvi me acalmar e aceitar o destino que Deus enviou pra mim... esse bb foi confiado aos meus cuidados pque eu sou capaz de cria-lo, e pque essa era a minha missão.... ele depende de mim e eu iria dar o melhor de mim pra ele....

E passaram as 40 semanas, entrei na 41a e nada..... foi aí que vocês, amigas queridas, fizeram uma corrente super legal de energia positiva, acendendo uma vela azul até o nascimento do Ian... isso significou tanto pra mim, num momento super delicado da minha vida.......

Na quarta feira seguinte, tudo começou....

Fui ao hospital pra fazer mais uma cardiotoco e nela acusou que eu já estava tendo contrações de 10 em 10 min, apesar de ainda não estar sentindo nada.... no fim da tarde comecei a sentir as coliquinhas, de 5 em 5 min... me animei: algo havia começado! O Ro alugou uns filmes e ficamos matando o tempo.... as contrações foram aumentando de intensidade durante a noite e lá pra meia-noite eu vi que não ia dar pra dormir, tava ficando beeem dolorido.... fui pra sala pra deixar o Ro dormir um pouco, a cada contração eu abaixava no chão e me debruçava no sofá, abafando os gemidos.... nos intervalos entre elas eu ia ao banheiro limpar totalmente o intestino (e como ficou limpo!!!!) e perdia junto um pedaço do tampão (aliás, haja tampão!)... às 5:30 hrs eu não agüentei mais e acordei o Ro, decidimos chamar a doula.....

Eu ainda estava num misto de euforia e ansiedade: meu Ianzinho estava a caminho.... eu ia pro espelho ver como a barriga se comportava, e ficava admirada de vê-la abaixar... enfim a doula chegou.... as contrações começaram a ficar punks, e as massagens começaram.... sentei na bola, o Ro começou a marcar os intervalos entre as contrações e eu comecei a xingar a dor.... a doula sugeriu um banho..... dentro do chuveiro as contrações começaram a ficar mais suportáveis e eu pensei: nossa, banho é tudo de bom mesmo!.... mas o que aconteceu foi outra coisa: as contrações pararam...... simplesmente pararam!!! Não tem como relatar o quanto eu fiquei frustrada!!!! Como assim eu passo a noite em claro sentindo dor, tudo evolui como eu tinha lido e relido nas mensagens e de repente para tudo, como se tivesse desligado um botão???? Ai que ódio!!! Mas hoje eu penso o quanto isso foi bom pra mim, esse "break" me deu a chance de descansar e recuperar as energias... mas na hora eu não queria isso, eu
queria a dor, eu queria meu bb, eu queria que aquilo acabasse logo, eu tava preocupada com o bb.... depois disso, aquela quinta-feira foi super monótona, com algumas contrações leves que vinham às vezes em 20 min, às vezes em 1 hora..... a noite foi a mesma coisa, consegui até dormir um pouco, só acordava quando vinha uma contração, mas sempre irregulares..... na sexta de manhã o dr J. me ligou dizendo que tinha um compromisso no fim da tarde que ele não podia deixar de ir e qqer coisa eu deveria ligar dizendo se ele podia tomar 1 ou 3 cervejas.... rsrsrs .... disse a ele pra ir tranqüilo, que pelo andar da carruagem a coisa não ia ser assim tão rápida..... ledo engano.....

Depois do almoço decidi que a casa podia ficar mais arrumada, catei o Ro e resolvi fazer uma faxina geral, daquelas de lavar a cozinha, banheiro, área, de cabo a rabo..... enquanto limpávamos tudo, lá pelas 3 da tarde as contrações voltaram a ficar regulares, e ainda estavam suportáveis.... umas 5 eu liguei pra minha doula pra avisar que elas estavam regulares, e ela ficou meio preocupada - era sexta feira em SP, rodízio do carro dela, hora do rush.... ela já ia ligar pro marido dela trazer o carro dele.... lembro de dizer: relaxa A., o negócio aqui vai demorar, começou a doer um pouquinho de nada só agora..... hahahahaha .... às 6 da tarde o Ro já tava ligando pra ela desesperado de 10 em 10 min pque eu tava gritando que nem louca sem parar.... foi incrível a evolução rápida das contrações, a intensidade da dor aumentando geometricamente a cada intervalo...

como da primeira vez a evolução havia sido lenta, aquilo começou a me assustar.... acho que o Ro leu aquilo nos meus olhos, pois de repente ele começou a ficar meio desesperado..... aliás, ele me surpreendeu... eu achava que ele não ia participar ativamente, mas ele resolveu assumir um papel de "doulo" enquanto a A. tentava atravessar a Dr Arnaldo e a Paulista na sexta às 6 da tarde..... fazia massagem em mim com o óleo que a A. havia deixado em casa (aliás, ele acabou com quase o vidro todo) e nos intervalos pegava as últimas coisas para a mala do Ian e ligava pra A. pra saber onde ela estava..... aliás, foi uma espera interminável..... a dor tava tão forte que eu gritava num travesseiro para abafar os gritos, ajoelhada no chão debruçada sobre a cama..... o Ro parecia uma barata tonta correndo de um lado pro outro, me ajudando.....

aí finalmente a A. chegou... esperei uma contração para sair de casa, só conseguia pensar: só faltava encontrar alguém no hall, o elevador chegou e o Ro ainda dentro de casa pegando coisas.... eu lá fora gritando: vamos logo que ta fodaaaaaaaaaaaaaaa..... e ainda me lembrei do relato da Val, quando ela encontrou um vizinho o elevador e teve uma contração....rsrsrs.... só me faltava essa...... milagrosamente o dito cujo tava vazio e não tive nenhuma contração lá dentro, só lá fora..... entramos no carro com a A. e vi que foi melhor mesmo espera-la chegar, pois o Ro não tinha condições de dirigir, além do fato de que eu não queria chegar sozinha com bb pélvico no raio do hospital..... a viagem, que normalmente dura não mais que 5 min pareceu eterna.... eu ajoelhada no banco de trás debruçada sobre o encosto em cima do meu travesseiro - aquele meu companheiro de gritos - olhando os outros carros o congestionamento..... foi até hilário....

teve uma moça no carro de trás que ficou olhando pra mim com aquela cara: o que esta louca ta fazendo sentada desse jeito, quando veio uma contração, eu gritei e enfiei a cabeça no travesseiro.... a cara da mulher foi impagável, não sei o que ela pensou.... enfim chegamos no Sta Catarina, com uma entrada triunfal: imaginem que eu tive uma contração punk da punk bem no meio do saguão do hospital, lotado de familiares esperando os bbs de cesárea nascerem, afinal era uma sexta-feira, dia nacional da cesárea.... detalhe: eu estava com um vestidinho de praia, descalça (perdi o chinelo numa contração dentro do carro) e com o rabo-de-cavalo meio descabelado e agarrada no travesseiro..... foi lindo......... rsrsrsrs....... enfim, subi no elevador tendo contração, saí dele tendo contração, fiquei esperando a porta do centro obstétrico abrir tendo contração, todo mundo me olhando..... quiseram me por na cadeira de rodas e após um sonoro não, desistiram.....

E cadê o dr J.?

Dr J. tinha ido naquele compromisso que ele tinha que ir de qqer jeito quando a coisa começou a esquentar...rsrsrs parecia que ele já tinha tido um pressentimento.... A. desesperada já tinha ligado pra todo mundo: dra Andrea, Vilma, e ainda tava pensando quem poderia chamar pra fazer parto pélvico....rsrsrs mas graças a deus dr J. tava perto e a caminho..... eu realmente não tava preocupada com isso, sabia que ia dar tempo....

quando entrei no raio do centro obstétrico a chata da enfermeira quis fazer o exame de toque e a cada grito de contração que eu dava, me debruçando no chão (ficar de 4 era a única posição que eu tolerava), ela me olhava com aquela cara de: ai coitada, pra que tanto sofrimento? Bom, fez a porra do toque e constatou que eu estava com 5 cm... eu pensei: só isso depois de tanta dor? ..... eram umas 8 da noite, que prometia ser longa.... aí ela começou com aquelas perguntas intermináveis para a internação, ai que ódio, eu queria mata-la, joga-la na Av Paulista, manda-la tomar no cu que eu queria ficar sozinha com a minha dor e ter meu filho....

finalmente acabaram as perguntas e fomos pra sala de parto..... a coisa tava feia, minhas contrações tavam extremamente dolorosas, duravam muito tempo e o intervalo entre elas era de 1 a 2 segundos no máximo.... aquilo estava me exaurindo, e eu não conseguia respirar direito... o dia estava muito quente e não havia ar na sala por causa do bb.... a A. sugeriu um
banho, mas foi horrível, além de não respirar, eu queria ficar dobrada no chão com meu travesseiro..... e foi o que fiz, na cama.... a A. queria que eu ficasse de cócoras, tentei, veio uma ultra hiper super punk, gritei feito louca (acho que estourei os tímpanos da A.) e ouvi um "plock"..... disse isso pra A.: teve um plock - e vimos que a bolsa tinha estourado, cheia de mecônio..... bem no pé da A.!

A partir daí só piorou, eu não conseguia pensar em nada, só sentia a dor, gritava: cadê o Ro, eu quero o Roooooooooooooooo, merda de internação, eu quero eleeeeeeeeeeeeee........

Juro que queria ser como aquelas que entram dentro de si mesmas, que controlam respiração pra evitar dor, mas eu não pensava, não vou mentir, a única coisa que eu fazia era gritar e gritar e gritar.........

Dr J. chegou... graças a Deus....

Nesta altura eu estava de 4 no chão debruçada sobre a poltrona, o Ro chegou e fiz ele sentar na poltrona, fiquei debruçada sobre ele........ ele me disse palavras encorajadoras, fiquei mais aliviada com ele ali comigo..... sentia vontade de empurrar.... eu empurrava, gritava, gritava de novo, e mais uma vez.....pensava, caralho, como demora... e gritava: to ficando cansada, sem força, não vou conseguir, Deus, me ajudaaaaaaaaaaaaa.......

As enfermeiras queriam que o Ro levantasse dali pra se paramentar, aí pra mim era demais, eu disse (gritei) daqui ele não sai! Funcionou, pque elas trouxeram apenas a blusa e ele trocou ali mesmo, sentado enquanto eu gritava no colo dele (mais tarde ele me disse que ficou com medo que eu mordesse as bolas dele, pode?)

Aí o Ro dizia sem parar: deixa ele vir, deixa ele vir, e a minha vontade era gritar: porra para de falar isso, ninguém mais do que eu quer que ele venha!!!!

De repente, uma movimentação atrás de mim.... dava pra ver a bundinha dele, foi a única coisa que eu lembro de ouvir e fiz mais força ainda...... saíram a bunda, as perninhas e o tronco, pude ver de relance..... dr J. mandou que eu ficasse de cócoras pra fazer a manobra pra tirar a cabeça, eu não queria, tava tão bem ali de 4, tava exausta, me pegaram na marra, o Ro e a A., cada um de um lado, e eu tirei forças sei lá de onde pra empurrar pela última vez.... a dor tinha mudado pra uma queimação terrível.... mas aí meu anjo nasceu.......

fui colocada no chão, em cima dos campos cirúrgicos, no que mais parecia um sonho, e meu Ianzinho veio pro meu colo....... tão pequeno, dormindo, era tanta felicidade, eu ria muito, o Ro chorava e dizia que ele se parecia comigo........ eu olhava pro Ro e dizia: olha nosso filho que lindo, ele chorava sem parar, emocionado... cortou o cordão umbilical ainda chorando e eu só queria abraçar meu filhinho.... neste momento ele foi tirado de mim, já havia algo
errado, eu que embriagada na felicidade e nos hormônios não havia percebido que ele estava mole demais, havia atribuído isso ao fato de ele estar dormindo, exausto pelo TP....

fui pra cama e logo depois me trouxeram ele embrulhado nos lençóis, tão pequeno e indefeso, e me disseram que ele havia nascido às 21:30 hrs.... eu, que havia perdido completamente a noção de tempo, me surpreendi com a rapidez daquilo tudo, que pra mim estava durando uma eternidade........... levaram meu pequeno de novo, para o pediatra avaliar no berçário, disseram que dentro de 2 horas ele desceria para o quarto....... eu não sabia que aquela tinha sido a última vez que eu ficaria com ele nas próximas horas, ainda estava me deliciando na sensação de felicidade........ afinal, eu tinha conseguido parir!

Desci para o quarto na cadeira de rodas (me recusei a deitar na maca, eu queria andar, mas não deixaram) ainda transbordando alegria, ficamos todos conversando, até que eu fiquei sozinha (até o Ro saiu, pra comemorar com um amigo, nunca vou perdoa-lo por isso, depois de tanto apoio e suporte ele me deixa assim sozinha)........ tomei um banho, fiz escova no cabelo, me arrumei toda pra receber meu pequeno, escrevi as lembrancinhas, quando ligaram do berçário pedindo que eu fosse até lá.....

quando cheguei lá, sozinha, o pediatra me disse que o Ian iria ser transferido para a UTI por estar com hipoglicemia, ele precisava tomar soro.... me disse também que havia uma má-formação no queixo que poderia atrapalhar a sucção..... me deixaram vê-lo um pouco antes de leva-lo e eu nem pude segura-lo direito (ainda choro agora escrevendo ao me lembrar disso)...... desci para o quarto, sozinha, sem conseguir dormir, rolei na cama sem parar, não conseguia prestar atenção em TV nem em nada, queria o abraço de
alguém, queria ser consolada, queria que alguém me dissesse que tudo ficaria bem....

Mas não havia ninguém.........

Chorei e chorei e chorei.........

A gestação e tudo que houve passavam na minha frente como se fosse um filme.........

E chorei novamente...........

A manhã chegou, e com ela o Ro....... fomos na UTI ver o pequeno, ele estava com um hematoma na testa, onde tentaram pegar uma veia, com o soro na mãozinha, oxímetro ligado no pezinho, e uma sonda no nariz...... não aguentei e chorei novamente, muito, e aí o médico falou pela primeira vez sobre ele ter um problema sério.... falou sobre a hipotonia, sobre chamar um geneticista, sobre a incapacidade de sucção........ previsão de alta? Não havia..........

O mundo desabou pra mim..........

Eu ia e vinha pelo corredor do hospital, do quarto para a UTI e vice-versa, vendo todos aqueles enfeites de porta, ouvindo o choro gostoso dos bbzinhos, cruzando com as auxiliares levando e trazendo os bbs para os quartos e sempre pensava: eu daria tudo o que tenho, minha vida, meu parto natural, qualquer coisa pra ter meu bb comigo, saudável, nessa hora........ o dia da minha alta chegou e foi com certeza o pior dia da minha vida......... nenhuma mãe deveria ter que passar por isso, ter que ir embora e deixar seu bb numa UTI...... quando cheguei em casa, sentei no chão da sala com o Ro, olhamos as coisas dele e choramos juntos até não poder mais......... não tem como descrever essa sensação..........

Mas graças a Deus ele estava vivo........

Juntei os pedaços e voltei pro hospital, onde praticamente eu moraria pelos próximos 29 dias....... eu chegava às 7 da manhã e ia embora às 11 da noite arrastada, sempre chorando no caminho até em casa, ir embora era uma tortura, sonhava com o dia em que ia poder finamente leva-lo pra casa.......

E ele sendo examinado a todo instante: tomografia, ultrassom de crânio e abdômem, teste do pezinho máster, etc, etc, etc

Entrei na rotina do hospital....... tirar leite, estimular a sucção do bb nas mamadas, segurar a seringa com leite na sonda, almoçar, ficar com ele no colo conversando e cantando, dormir com ele de puro cansaço....

Até que um dia um pediatra excelente desconfiou que o problema dele poderia ser uma doença genética rara, chamada Síndrome de Prader-Willi.... foram solicitados os exames necessários, que a minha doula, abençoada seja, conseguiu de graça para nós na USP, no Projeto Genoma...... eu preferi não buscar informações sobre a doença, mas muitas pessoas resolveram me falar sobre ela, e eu já sabia o que esperar, não tão a fundo, mas o principal eu já sabia.... alguns dias depois (muitos dias) veio a confirmação: meu Ian tinha PW..... chorei tanto, eu, que achava que não tinha mais lágrimas, chorei pias, piscinas, banheiras, rios e oceanos pelo meu filho, que iria passar por tanto sofrimento..... queria que deus mandasse essa prova pra mim, mas o liberasse de sofrer.... mas isso não é possível, cada um tem sua missão na terra e a minha era ajuda-lo.... juntei meus cacos, ergui a cabeça e fiquei forte novamente.... eu ia fazer das tripas coração para que a vida de meu filho fosse feliz......

E eis que finalmente o dia tão sonhado chegou........ a alta do meu anjinho.... presente de papai noel, pois aconteceu dia 25 de dezembro........ foi também uma pressão da minha parte, pois os 30 dias cobertos pelo convênio estavam chegando ao fim e eu não teria como arcar com os custos do hospital.... o Ian já tinha tido alta do oxímetro, o principal impedimento de alta, e conversando com o pediatra, expondo este problema, eu o convenci que poderia muito bem lidar com a sonda alimentar sozinha em casa, se me ensinassem como coloca-la corretamente... ele concordou e eu quase explodi de tanta felicidade....... este dia vai ficar na minha memória para sempre.......

E vocês, minhas amigas queridas, sempre me apoiando, sempre junto a mim de alguma forma...... se não fossem vocês eu não teria conseguido tanta força...... Agradeço de coração a todas vocês, que foram me visitar no hospital, me mandaram roupinhas pro Ian, me deram apoio financeiro e emocional....... não tenho palavras suficientes para agradecer a vocês todas, que ajudaram a nós, pessoas que vocês mal conheciam pessoalmente, de uma maneira tão humana.........

Obrigada, que Deus lhes dê em dobro....... desejo também que um dia eu mesma possa retribuir o bem que vocês nos fizeram......

E agradeço demais à equipe que me assistiu antes, durante e depois do parto, Dr J. e minha doula..... obrigada por terem acreditado em mim e no bb, obrigada por ajudarem a trazer meu filho ao mundo, obrigada pelo apoio emocional.......... tenho uma dívida de vida com vocês....... a vida do meu Ian, pois com certeza ele não teria se recuperado da mesma maneira, talvez nem vivido, se ele tivesse nascido de cesárea com 37 semanas.........

Que Deus abençoe suas vidas com muita saúde e alegrias

E que cada vez mais vocês possam trazer felicidade às pessoas........

A mesma felicidade que eu sinto quando abraço meu Ian tão apertado no peito.....

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