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Relatos de Parto
Nome: Ana Paula Caldas Machado

 

HISTÓRIA DO PARTO DA LIS

Na verdade, este parto começou a ser gerado há quase 4 anos, após o nascimento do meu primeiro filho, Miguel, por cesárea. Naquela época, por sugestão da Rox, minha primeira obstetra , comecei a participar da lista Amigas do Parto, e através das discussões da lista aos poucos fui questionando tudo aquilo que aprendi durante os anos de faculdade de medicina e na prática da neonatologia. Foi um processo lento, penoso e irreversível.

Através da lista, fui abandonandoa idéia do parto como algo perigoso e necessitado de inúmeras intervenções médicas. Assim, antes mesmo de engravidar novamente, já estavamos decididos pelo parto em casa, assistido por uma parteira. Isso era uma coisa que eu fazia questão: nesta altura eu já estava convicta que a grande maioria dos obstetras não está capacitado para atender a um parto natural sem intervenções ­ são os vícios da nossa formação, que privilegia o uso indiscriminado da tecnologia.

Através da Ana Cris, conheci a parteira que procurávamos: experiente, dedicada, sensível, sintonizada com a força da natureza e com o significado espiritual do nascimento de uma criança. Assim que comecei o pré natal com a V., na metade da gravidez já fui surpreendida pela diferença da abordagem. Ao contrário dos médicos,partíamos sempre do princípio que estava tudo bem comigo e com o bebê, e não o contrário.

Foi uma gravidez ótima, nunca fui ao médico, fiz pouquíssimos exames ­ apenas o básico ­ e um único ultrassom com 24 semanas, quando soubemos que esperávamos uma menina. Eu, que nunca imaginei ter uma filha (sempre achei que teria outro menino) percebi então a oportunidade que se apresentava: eu renasceria como mulher ao dar à luz minha filha.

Minha data provávael do parto era 25/09, mas eu sempre tive a sensação que o bebê viria dia 24. Poucos dias antes, entrei em licença e comecei a desacelerar. Estávamos terminando uma reforma na casa e eu ainda não havia organizado as coisas do bebê. Pretendia aproveitar estes dias para isso, mas acabei não fazendo muita coisa. Meu corpo pedia descanso antecipando o que estava para vir.

No dia 22, acordei bastante incomodada,com contrações indolores mas muito frequentes. À tarde, meus pais ( que nem imaginavam que o bebê nasceria em casa) vieram de Minas trazer o Miguel. Na verdade, eu havia planejado deixá-lo na casa dos avós durante asemana para ter mais tranquilidade durante o trabalho de parto, mas surpreendentemente, ele que adora ficar com a avó, pediu para voltar depois de 1 dia porque Oa irmãzinha ia nascer".

Lá pelas 20 horas liguei para a minha doula para bater papo. Comentei que achava que o parto seria dia 24 e ela apostou na outra semana. Às 22 horas,a bolsa rompeu e as contrações aumentaram de intensidade e ficaram regulares. Liguei para a parteira e minha doula ( que ainda achou que era brincadeira!) e começamos a arrumar o cenário: arrastamos a cama, trouxemos o colchonete, acendemos as velas, escolhemos os CDs. Depois da meia noite, a super equipe chegou.

Comentário aliviado do Fernando : "não é que o negócio funciona mesmo? Tá todo mundo aqui!¹ Eu achava que a evolução do meu trabalho de parto seria rápida,já que no parto do Miguel cheguei a 7 cm em cerca de 5 horas. Lembro de ter pensado "errei a data, amanhã cedo minha menina já terá nascido". Quando a parteira me examinou, levei um susto: colo do útero grosso, 1 cm de dilatação.

A noite ia ser longa. Fizemos uma massagem, eu ainda tentei dormir um pouco, mas não consegui. Acabei indo para a cozinha conversar um pouco. As contrações estavam aumentando e a parteira sugeriu que eu fosse para a banheira para relaxar um pouco. Fiquei horas na banheira, ouvindo música, à luz de velas. Apesar das dores, eu me sentia feliz, sintonizada com o meu corpo.

Pensava na minha avó, que pariu 12 filhos em casa , e em todas as mulheres antes dela. Tudo estava como deveria ser, e eu me senti grata por poder viver esta experiência em casa. Durante a madrugada, as contrações foram ficando bem fortes, mas a dilatação progredia lentamente. De manhãzinha, estava com 4 cm, basatante cansada e com muita dor. Resolvi deitar um pouco,cheguei a cochilar entre uma ontração e outra. Na hora do almoço, a parteira sugeriu que eu decesse um pouco, me movimentasse, andasse no sol, mas eu estava completamente sem energia, desanimada, mal conseguia me mexer. O pessoal foi almoçar, mas eu nem podia pensar em comida.

A parteira então apareceu com um prato de comida e praticamente me obrigou a comer . Comi um pouquinho, mais para não ficar chato do que por estar com fome, e imediatamente senti alguma coisa mudar. Fiquei bem mais animada, tomei um banho, desci para a sala, consegui conversar civilizadamente com o JK, que havia chegado de São Paulo para ver se conseguia assistir um parto domiciliar. A parteira preparou uma "poção" com homeopatia para melhorar o ritmo das contrações, e elas passaram a ser mais frequentes porém mais curtas e suportáveis.

Fui caminhar no quintal, tomar sol,mexer a bacia. O Fernando e eu ficamos dançando na grama,ele me afirmando o tempo todo que tudo daria certo, que eu ia conseguir ter o nosso neneém em casa, como a gente queria. Também fiquei um bom tempo sentada na bola suíca e também de cócoras, pendurada na rede. À tardinha, tomamos um lanche, e as contrações voltaram a doer bastante.

À noite, um novo toque: 7 cm! Todo mundo comemorou, fiquei muito animada, continuei alternando exercícios na bola e caminhadas. Minha tia Fátima e minha prima Sophia chegaram de São Paulo para dar uma força com o Miguel e assistir ao parto. Lá pelas 11 da noite, fui deitar um pouquinho com o Miguel para fazê- lo dormir. Tive umas contrações punks (sem poder gemer muito para não assustar o menino) e quando levantei,estava com uma tremedeira incontrolável.

A minha doula comentou que eu devia estar na transição, e me levou para o chuveiro quente, onde deu para dar uma relaxada. Por volta da meia noite, a dilatação já estava completa, com um pequeno rebordo de colo, que a parteira tentou reduzir com a mão em todas as posições possíveis, me fazendo ver estrelas de tanta dor. Minha intuição portanto estava certa: minha menina nasceria dia 24. Lembro da parteira dizendo: "quer fazer nascer ou prefere descansar um pouco?" Como assim, descansar? E comecei a fazer força em várias posições ­ de lado de quatro, deitada de cócoras. As horas foram passando, a dor beirava o insuportável.

Tudo doía: os ossos da bacia, a perna , a barriga. Se eu estivesse no hospital,nessa hora teria pedido analgesia com certeza - aliás, teria pedido bem antes. Ainda bem que não estava! A parteira, a doula e o Fernando se revezavam fazendo massagem nas minhas costas nas contrações. Perdi a noção do tempo e nem sei que horas eram quando a parteira me examinou de novo e disse que a neném estava defletida. Nesta hora, fiquei deseperada. Embora ninguém tenha jamais sugerido tal coisa, achei que teria que ir para o hospital, porque todos os bebês defletidos que eu já vi ou acabaram em cesárea ou fórceps.

Daí para a frente, chutei o balde: gritei, chorei, xinguei todo mundo, falei que não aguentava mais. Voltei para o chuveiro, sentada na bola. Perguntei para a parteira: "e agora, o que a gente vai fazer?"e ela, na maior calma, disse que estava tudo bem, que eu precisava mexer o quadril, gritar se tivesse vontade. Obedeci, fiquei lá no chuveiro com a minha doula, depois com a minha tia, alternando entre cantar e gritar durante as contrações.

Na verdade, eu já nem distinguia mais o que era contração, tudo doía o tempo todo! Experimentei ficar de cócoras durante as contrações, segurando nas mãos da Fátima,que cantava um mantra que falava da força da natureza. Saí do chuveiro, sentei no vaso e de repente senti vontade de fazer força, um puxo. Nem acreditei,parecia que o bebê estava descendo, finalmente. Chamamos todo mundo, e eu resolvi ficar no banheiro (estava dando certyo, ia ser ali mesmo).

O J. trouxe uma cadeirinha de parto, eu me sentei nela, apoiada atrás primeiro pela doula, depois pelo Fernando. A vontade de fazer força era incontrolável, ao mesmo tempo uma impressão horrível de que vai arrebentar tudo. A minha doula falou: "é só uma impressão, não vai rasgar nada. Agora é a hora do"foda-se", vai nascer" . Eu senti perfeitamente o bebê entrar na bacia,girar. Continuava doendo muito, mas agora era diferente,estava nascendo, eu me sentia cheia de energia. A parteira colocou minha mão e a do Fernando na cabecinha do bebê, já estava uma boa parte para fora, que bom!

De repente, uma força grande, a parteira ainda tentou segurar para a cabeça sair devagar, mas não deu: a bebê saiu com tudo, mãozinha na bochecha e circular de cordão. O tempo parou. Primeiro, a sensação que eu tive é que a parteira tinha empurrado a bebê de volta. Só depois entendi que tinha nascido. Peguei minha filha no colo, ela veio de olhos abertos, chorou um pouquinho.

Olhei para as pessoas, que estavam emocionadas, chorando: O J. com o celular, transmitindo o nascimento para a esposa, a minha doula, que não assistiu ao nascimento (foi esquentar uma compressa para o períneo lá na cozinha, a pobre), minha tia e minha prima, com a filmadora, o Fernando me abraçando. Eu não sentia vontade de chorar , me sentia vitoriosa, poderosa, redimida.

Com este parto, eu me perdoei pela cesárea que sofri. Olhei para minha filha,uma menina, nascida com a força da natureza,minha cura, que será um dia mulher e passará pela maravilhosa experiência de parir um filho. Como eu, minha mãe e minha avó parimos. Como todas as mulheres antes de nós. Um ciclo se fecha e recomeça hoje, com o nascimento da Lis, nome que significa lírio, ao amanhecer no início da primavera. E não tem como não agradecer a quem é devido. À Rox, por me mostrar o caminho. Ao Fernando,pelo apoio e pela firmeza na hora certa. À minha doula, que até hoje me surpreende pela dedicação,paciência e idealismo. Ao J., pela delicadeza, atenção e por me mostrar que nossa profissão ainda tem jeito. À minha parteira, que tornou tudo possível, pela sensibilidade, confiança, competência. Por acreditar nessa missão sagrada.

Leia também o depoimento do pai, Fernando.

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