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por Ana Cristina Duarte
 
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Relatos de Parto
Nome: Ana Thomaz

 

Com uma jornada de 16 horas por dia de trabalho, sempre foi dificil participar da lista escrevendo, mas sempre li e isso fez toda diferença na qualidade do meu parto. Há quase treze anos atrás tive meu primeiro parto. A certeza da minha condição fisica e emocional para ter um parto natural achei que bastaria para que acontecesse assim.

Mas não. Quando estava para entrar na 40 semana eu vi um fluido rosado na minha calcinha, liguei pro medico que pediu para ir urgente para seu consultorio, ja com a mala pronta para maternidade. Ele me examinou e disse que eu tinha um furinho na bolsa e se quisesse parto natural teria que ser induzido o mais rapido possivel. Fui para o São Luiz e da-lhe ocitocina. Em oito horas dilatei 4 cm.

Ele disse que estava demorando muito e que meu bebe poderia entrar em sofrimento e me "sugeriu" uma cesaria para que tudo pudesse dar certo. Fiquei meio tonta e aceitei. Correu tudo bem, superei a frustração da cesaria com a chegada tão desejada do meu filho, mas quando meu filho nasceu, as enfermeiras levaram ele dali e isso me enlouqueceu. Eram duas da manhã e elas disseram que ele ficaria no minimo seis horas no berçario.

Magicamente me "recuperei" da cesaria em algumas horas e com a ajuda do pai do meu filho fui até o berçario pedir o meu filho de volta. Foi a maior briga, até que assinei um documento muito ameaçador e pude ter meu filho comigo. O medico voltou na manha seguinte e a minha primeira pergunta foi : quando é que eu vou embora? Com esse historico aprendi que o parto natural não é tão simples assim. Novo casamento e um desejo enorme de engravidar de novo.

Tres meses depois da decisão, engravidei, e meu marido me pergunta se eu não toparia ter um filho em casa. Adorei a ideia, não gostaria de viver de novo o "sequestro" do meu filho logo apos o parto. Assim procurei informações até chegar na minha doula. Tivemos um encontro e ela super me incentivou a um parto em casa. Ela me indicou duas parteiras que trabalham em São Paulo assim como o Dr. Julio que atende pela Unimed, meu convenio.

Fiz meu pre-natal com o Dr. Julio e com a Vilma, que trabalham muito bem juntos. Com 38 semanas, fiz o curso de preparação com a minha doula. No domingo, depois que ela passou o video da Naoli, meu marido resolveu que ele faria o parto e a Vilma seria sua assistente. Naquele mesmo dia meu filho (12 anos) reclamou de mal estar e dores no baixo abdominal. Meu marido tinha espetaculo com sua peça de teatro, mesmo assim resolvi ir sozinha com meu filho ao pronto socorro. Era apendicite e ja estava em estado grave, ele foi imediatamente operado e o medico disse que mais algumas horas e ele iria para UTI.

Fiquei com ele seis dias no hospital, saí do hospital com uma anemia profunda no nivel de transfusão de sangue, ja com 39 semanas. O Dr. Julio( que foi impecavel durante todo o pre-natal e torceu muito para que eu tivesse meu parto em casa) optou por um tratamento radical com alimentação e injeções de noripurum. 40 semanas e pego uma gripe de derrubar. Dores por todo corpo, não tinha força nem para levantar quanto mais para um TP.

Comecei a ficar preocupada com a possibilidade de não entrar em trabalho de parto. Mas ao mesmo tempo tinha sonhos lindos. A cada sonho um preparo maior para o parto. E assim foram todas as noites. A um dia de completar 41 semanas acordei com a certeza que seria aquele dia. Mas só la pelas dez da noite é que comecei a sentir as contrações mais regulares. Acreditava estar com a anemia controlada e ja me sentia bem da gripe porem meu marido naquele dia baqueou, foi para cama com febre alta, gemendo de dores por todo corpo.

Sozinha, comecei a prestar atenção nos tempos das contrações, me assustei quando percebi que estava tendo uma a cada dois minutos. Liguei para Vilma, ela chegou em meia hora, fez um exame de toque e eu estava com 3 cm de dilatação. Então as contrações começaram a vir muito fortes e a cada minuto. Duas horas depois pedi para Vilma examinar porque achei que ja tinha chegado a 10 cm, mas estava com 4cm. Ali eu percebi que a noite iria ser longa e trabalhosa.

Como eu tenho 4 miomas, concluimos que o utero estava bem irritado e por isso eu não tinha intervalo entre as contrações, eram só ondas sem intervalos e muito doloridas. Como trabalho com tecnicas corporais achei que tinha que aproveitar aquele momento unico e comecei a experimentar. Dancei, me pendurei, delizei pelo chão, senti que em vinte anos de trabalho, nunca aprendi tanto sobre o corpo como naquelas oito horas.

A Vilma assistia a tudo lamentando não ter uma filmadora. Quando cheguei aos 9 cm, ja não podia me mover durante o pico das contrações, subimos para o meu quarto e meu marido acordou apesar do pessimo estado, meu filho acordou tambem e venho para o quarto. Foi mais uma hora e meu marido apesar de seu estado me segurou nesta ultima hora, a Vilma até saiu do quarto.

Chegou a hora!!! fiquei de quatro, mas tinha alguma coisa emperrando, a Vilma sugeriu que eu deitasse de lado e segurasse meu joelho contra a testa. E ali fiz toda a força do mundo. Queimou muito, achei que eu fosse me abrir inteira. Olhei para o meu filho e ele sorriu, nem meu filho, nem meu marido sentiam pena de mim, e isso me ajudou muito.

A Vilma disse que não daria para ser um expulsivo lento e pediu para eu fazer muita força porque tinha que nascer logo, pois o bebe ja estava com a cabeça bem encaixada e ja se nenhum liquido por um tempo. E aí veio, pus a mão na minha vagina, senti sua cabeça e chamei meu bebe para o mundo falando muito alto e com muita força e convicção, ainda não sabia o sexo do bebe.

Nasceu, olhei meu filho e meu marido e os dois choravam emocionados e paralisados. Uma menina! gritou meu marido. Peguei ela no colo, ainda sentia muita dor. Ela ficou comigo agarradinha. Meu marido cortou o cordão e esperamos a saida da placenta, que foi enterrada no jardim. Na hora do parto surgiu o nome na mente do meu marido, um nome que nunca tinhamos pensado, mas surgiu de maneira tão espontanea e forte que não tivemos duvidas, Franciska, que nasceu dia 4/05/06, com 3950kg e 53 cm. Seu corpo estava coberto de meconio, mesmo assim seu apga foi 9/10.

Tive uma laceração importante, depois de cinco dias vimos que eu estava toda aberta pois rejeitei o fio dos pontos, tivemos que refazer os pontos porem com a inflamação a anestesia não pegava. E tudo isso não tirou nem um pouco o momento maravilhoso que vivemos neste parto tão intenso e lindo. E que eu estou até hoje colhendo os frutos desta vivencia.

As reflexões que este parto me levou foram bem diferentes do que eu imaginava. Para mim ficou claro o poder que o parto natural, por ser tão potente e ligado a natureza, tem de nos aproximar de uma realidade possivel porem muito distante. Nosso modo de vida está muito separado do que podemos viver, sentir e realizar. Um parto natural, sem nenhuma intervenção, não combina com um modo de vida em que se acredita que a dor é sofrimento, ou um modo de vida em que se recorre a um analgesico e outras maneiras paleativas de sanar o efeito sem trabalhar a causa de um problema.

Sinto agora que o parto natural possa ser uma porta de volta a um contato maior com a nossa potencia. Mas me parece que uma mulher que esteja investindo em uma maneira de viver muito distante do que sua natureza pode, deva mesmo preferir um parto cheio de intervenções. Eu achei essencial viver as 8 horas de trabalho de parto e sentir todos seus estagios. Não trocaria esse parto por um indolor. Foi um lindo ritual que despertou e fortaleceu um modo de vida que eu venho buscando e que foi coroado por uma linda menina, a Franciska.

Um abraço
Ana T.

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