Ir para a Página Principal 
 Artigos Palavra da Parteira
por Ana Cristina Duarte
 
 Serviços para Profissionais Para profissionais (cursos, oficinas, consultoria)
 Serviços para Gestantes Para Gestantes (cursos, yoga, atendimento)
 Produtos Produtos
vídeos, livros,
e outros
 Eventos Histórias de Parto
relatos de mulheres especiais
 Outros Links
Cadastre-se
 
 

Relatos de Parto
Áurea Gil

 

Relato do parto do Samuel
Bom, acho que chegou a minha vez de parir um relato de parto... Não vai ser difícil, afinal, adoro escrever... O que acontece é que assim que eu resolvo sentar aqui no computador e escrever o meu filhote resmunga e eu acabo deixando o relato de lado e vou até lá curtir meu bebê... Parece que ele adivinha, é engraçado, acho que não quer que conte pra ninguém como foi que ele nasceu, hehehehe... Na verdade, eu acho que ele quer que eu conte essa história só pra ele... Pois bem, vai ser assim então... Pra facilitar, divido em capítulos... Assim quem quiser saber só do parto vai direto ao assunto...

Gênesis
Era uma vez... hahaha... Como você é um principezinho, sua história vai ser contada assim, como num conto de fadas... Tudo começou... Bem, começou com a ajuda de uma fada madrinha... Bom, fada eu não sei, mas sua madrinha ela é... E sua história começou com um empurrãozinho da sua madrinha Xyka, que um belo dia mandou uma foto para o seu pai por msn... Eles eram amigos virtuais e viviam conversando... Só que nessa foto não estava só a sua dinda querida, mas também estava eu, sua mãe... Seu pai diz pra quem quiser ouvir que se apaixonou por aquela foto... Não que eu acredite, mas ele repete tanto isso que comecei a me acostumar com a idéia...

Enfim, seu pai não era daqui de São Paulo mas acabou resolvendo vir pra cá com o pretexto de jogar no meu grupo de RPG... O que é RPG? Ah, filho, se você já sabe ler esse relato com certeza já sabe o que é, mas não custa explicar pra quem não conhece... É um jogo que eu e seu pai amamos e jogamos desde que éramos crianças...
Mas voltando ao seu pai, ele jura que na verdade não veio pra São Paulo pra jogar... Ele diz que veio porque queria mesmo era me conhecer... Não sei se acredito, mas sei que a gente acabou se conhecendo numa tarde de muita ventania lá no Centro Cultural...
Vou te confessar, Samuel... Achei seu pai lindo... Logo começamos a conversar e não paramos mais... E não nos largamos mais... E começamos a namorar no dia 3 de abril de 2005... Passamos um tempo namorando a distância e foi bem difícil, mas logo seu pai veio morar comigo... Simplesmente não conseguíamos mais ficar longe um do outro...

A descoberta
E então lá estávamos nós lá pelos 6 meses de namoro e eu comecei a desconfiar que aquele atraso na menstruação já estava ficando exagerado...

Estava mais ou menos tranqüila... Afinal, eu estava irritadíssima, como sempre ficava alguns dias antes de menstruar... Meus seios inchados e doloridos... E uma cólica que ia e vinha... Parecia tão claro que eu ia menstruar a qualquer momento! A única coisa estranha era a minha pele... Geralmente na TPM eu ficava com a pele oleosa e com espinhas... Dessa vez a pele estava linda, perfeita! Um mistério...

Lá no fundinho, vinha a dúvida que me deixava intrigada... Alguma coisa não estava direito... Ou estava direito demais, viemos a saber depois...

Com alguma relutância, depois de sentir uma forte tontura no meio da rua e quase desmaiar (dando um belo susto no seu pai e na sua madrinha Xyka) eu resolvi aceitar que algo estava acontecendo comigo e fazer um teste de gravidez...

Era uma segunda-feira e compramos o teste na farmácia do mercado perto de casa... Voltei pra casa e me tranquei no banheiro... O teste precisava reagir alguns minutos no xixi... Enquanto esperava, fui tomar banho... Depois de um tempinho, dei uma espiadinha para o teste que estava em cima da pia... Cheguei a perder o equilíbrio... Estavam lá, muito nítidos e fortes: dois risquinhos!! Era positivo!

Que susto!! E agora? Seu pai já batia do lado de fora da porta: "E aí?? E aí??..." Abri a porta rindo de nervoso, o teste na mão... Ele viu que eu estava rindo e riu também... "Tudo bem? O que deu?"... Mostrei os dois risquinhos e ele quase caiu pra trás... Foi até meu quarto e deitou na cama, mudo, uma cara de susto e os olhos arregalados... Nós vamos ter um bebê!!
No banco da praça
Saímos de casa para conversar mais tranqüilos. O Ivan com cara de fantasma, pálido, assustado. Eu rindo de nervoso, como costumo fazer. Estava de saia rodada preta e chinelo, e quando olhava para baixo chegava até a ver uma barriguinha... Uma profunda piração aquele dia.

Sentamos numa pracinha perto de casa e só o que o Ivan conseguia dizer era "meus pais vão me matar, meus pais vão me matar"... Decidimos naquela hora que teríamos o bebê... Seria uma maluquice... Nós dois sem trabalhar, morando de favor na casa do meu pai, sem grana nem pra pegar ônibus e resolvendo sentados na pracinha que teríamos nosso bebê.

Tá, mas e agora? A primeira idéia que tivemos era a que eu precisava ir ao médico e fazer um exame confiável para ter certeza que eu estava mesmo grávida. Plano médico? Nem pensar... Grana pra pagar um exame particular de gravidez? Nem em sonho... Muito menos pra pagar médico... Que desespero...

Resolvemos ir até um posto de saúde perto de casa e descobrimos que só poderia fazer uma consulta dali a um mês! Fomos andando até um hospital perto de casa e lá descobri que eles não faziam teste de gravidez, que teria que ser pelo posto mesmo... Andamos muito, muito mesmo e chegamos em outro posto do SUS... Lá consegui, por obra divina, uma consulta para o dia seguinte...

Prestando Contas
Com a gravidez de 9 semanas confirmada pelo exame do posto de saúde era a hora de dar a notícia aos familiares. Primeiro meu pai... Uma conversa na sala de tevê, um parabéns meio sem jeito, algumas broncas, perguntas, preocupações... Mas até que ele reagiu bem melhor do que esperávamos, apesar do susto inicial. Mazé, namorada dele, também apareceu para dar uma força e acabou que tivemos uma conversa legal...

Na casa do seu pai o susto foi maior... Compreensível, afinal, quando soubemos da gravidez seu pai tinha apenas 18 aninhos... Depois das conversas individuais, uma conversa coletiva: encontro dos pais na minha casa para discutir a situação. Na hora foi meio estranho, hoje acho até engraçado. Do alto de meus 26 aninhos eu me senti num conselho de classe, hehehe...

Pleiteamos então um empréstimo emergencial e conseguimos pagar o débito com meu antigo plano de saúde. Tudo resolvido!
Resolvido? Até parece, hehehe... Na verdade acho que a nossa aventura estava só começando... Se pudesse voltar atrás talvez não tivesse reativado o plano e talvez você tivesse nascido numa casa de parto, mas na época a pressão familiar foi grande e nós cedemos...
Materna
Logo comecei a procurar informações sobre gravidez na internet e cheguei à lista materna... À lista devo tudo o que aprendi e não sei o que seria do seu nascimento se essas mulheres tão queridas não existissem...

Pra mim era tão óbvio que a melhor forma pra você nascer era o parto normal... Me assustei ao descobrir o triste quadro dos nascimentos no país e me entristeci ao saber que tanta gente fazia cesáreas eletivas desnecessáreas ou eram enganadas por seus médicos arriscando a própria vida e a de seus bebês... Era engraçado, eu nunca na vida soube disso, me senti meio alienada...
Mais do que nunca estava decidida a ter você num parto normal...

Lia e relia os relatos de parto, conversava com as meninas, enchia a lista de perguntas e a cada sintoma que aparecia era com elas que eu falava... Até que eu gostava da médica que fez meu pré-natal mas se não tivesse procurado por mim mesma as informações que tenho hoje, acho que ela nunca teria me orientado dessa forma...

Por iniciativa minha a médica nos apoiou a fazer um plano de parto
e sempre dizia que eu iria conseguir o parto do jeito que eu imaginava (o parto não seria feito por ela, seria com o plantonista do hospital do meu plano, o Nossa Senhora de Lourdes)...
A gravidez foi muito tranquila, não deixei de trabalhar, fazia tudo normalmente, não tive enjôo, quase não engordei e me sentia muito bem e feliz... Sua saúde também sempre foi perfeita...

Em fevereiro de 2006 descobrimos que você era um menino... Não podia ser diferente...Eu sempre andei cercada de meninos...Sempre tive ótimos amigos homens...Sempre circulei em ambientes mais masculinos, como o RPG, onde a mulherada é minoria....Quem me conhece sabe, nunca fui de frescuras, de roupinhas de menininha, de babadinhos...

Mas, ao mesmo tempo, eu tinha absoluta certeza de que ia ter uma menininha...Não sei explicar a situação, mas eu sentia isso...Mas veio um moleque! Menino-macho, hahaha... Eu fiquei meio perdida quando apareceu no ultrassom, justamente porque não sabia o que pensar...Mas você era (e é!) tão lindo, tão perfeitinho, mexia tanto... Estava e está mais do que saudável e tudo estava correndo tão perfeitamente bem que eu não pude resistir...

E então, apesar daquela sensação engraçada de "diabos, tem alguma coisa errada, eu vou ter uma menina!" eu fiquei muito feliz, muito muito mesmo...E quem vinha aí era você, o lindo Samuel, nosso Samuca... Nosso Sam...
Reta final
Quando já estava mais perto de você nascer eu e seu pai fomos a dois encontros no Gama onde várias meninas da lista Materna costumam aparecer... Adoramos ver de perto as barrigas e as carinhas daquelas pessoas tão especiais que de certa forma estavam sempre comigo...

Gostaria de ter ido lá mais vezes mas lá pela 36ª semana se gravidez minha coluna travou... Foi logo depois do seu chá de bebê... Fiquei impossibilitada de andar e parei de trabalhar... Todos foram muito pacientes comigo no meu trabalho e eu pude sair de licença mesmo sem ser registrada legalmente por lá...
Em casa consegui descansar, fazer a coluna melhorar e pude arrumar tudo e curtir os últimos dias de barrigão...
Finalmente...

O trabalho de parto e o parto
Um dia antes de completar 40 semanas o tampão começou a sair... Como sempre, comentei o fato no meu fotolog e então as pessoas começaram a fazer uma certa pressão dizendo que você talvez "passasse da hora"... Fiquei um pouco irritada com isso mas eu sabia que estava tudo certo e sentia que o meu corpo estava trabalhando pra te trazer pra gente...

No dia que completei 40 semanas comecei a sentir contrações frequentes lá pelas 8 horas da noite... Eu e seu pai marcamos o tempo e elas vinham de dez em dez minutos, mas eram bem fraquinhas, quase não incomodavam... Achei aquilo ótimo e procurei dormir bem naquela noite...

Nas várias vezes que acordei à noite senti as contrações... Cheguei a ver no relógio do celular o intervalo mas elas estavam mais espaçadas, talvez 15 em 15 minutos... Na quarta-feira, dia 24 de maio, um dia depois da data provável pro seu nascimento as contrações começaram a apertar mais... De 10 em 10 minutos ainda, mas agora mais fortes...

Seu pai ia fazer um concurso na usp e não ia trabalhar naquele dia... Ficou em dúvida se ia fazer a tal prova ou não mas eu praticamente o obriguei a ir... Sabia que ia demorar ainda e estava certa...
Durante o dia, o intervalo das contrações foi diminuindo e quando seu pai chegou da prova, lá pelas 16 horas, eu já estava com contrações bem fortes e regulares, de 5 em 5 minutos... Nossa, que dor!! Lembro que estava passando o filme "O pai da noiva 2" na TV e tinha duas mulheres grávidas no filme...

E nós lá contando os minutos e as contrações não falhavam... Seu pai resolveu cochilar um pouco depois do filme e eu estava elétrica, comecei a arrumar o armário de casa... Lembro do seu pai acordando e falando que eu devia mesmo estar entrando em trabalho de parto ou então estava ficando maluca...

Nessa hora da arrumação do armário as contrações começaram a ficar realmente fortes, eu mandava seu pai jogar um negócio fora, arrumar um livro e de 3 em 3 minutos vinha aquela contração forte e eu me acocorava no chão e respirava bem fundo... Dali a pouco já estava de pé de novo como se nada estivesse acontecendo, mandando ele fazer coisas e andando pela casa... Uma doida!

Numa dessas contrações em que eu estava acocorada no chão seu avô entrou no quarto e falou alguma coisa comigo... Eu só consegui erguer a mão e pedi pra ele esperar um pouco... Tinha proibido seu pai de dizer que eu estava com contrações porque queria esperar ao máximo pra ir ao hospital e sei que seu avô soubesse ia querer voar pra maternidade...

Quando a contração passou o seu avô falou: "Que foi? Está com
falta de ar?" e eu falei que estava com contrações bem fortes e que era pra ele ficar avisado que talvez eu quisesse ir pro hospital em breve...

Lembro dele arregalando os olhos e falando meio nervoso que qualquer coisa estava na casa da Mazé, namorada dele, que mora no mesmo prédio, no andar de cima... Pra mim estava tudo bem... Seu pai quis ver se estava tudo certo na mala da maternidade... Conferimos e estava tudo prontinho pra sua chegada...

As contrações estavam realmente doloridas e fortes, seu pai estava ficando preocupado e resolvi que se eu tivesse 15 contrações fortes e seguidas de 3 em 3 minutos iríamos pro hospital... E assim foram, 15 contrações que se repetiam de 3 em 3 minutos como um relógio e que duravam cerca de 40, 50 segundos...
Fui tomar um banho e percebi que estava saindo mais do tampão, o que pelo jeito indicava que eu estava dilatando... Estava bem feliz apesar da dor e durante o banho ia avisando seu pai quando vinha a dor... Continuava certinho, de 3 em 3 minutos... Fomos pro hospital lá pelas 22 horas, seu pai, eu, seu avô e a Mazé... No carro fui meio de ladinho e respirava fundo pra aguentar as contrações... Estava tranquila e conversava bastante no intervalo entre uma e
outra...

No hospital a médica plantonista fez exame de toque e constatou que eu estava com 3 centímetros de dilatação... Expliquei que não queria induzir o parto e que pretendia não tomar anestesia e nesse caso ela me orientou então a ir pra casa e voltar de manhã ou quando eu sentisse que não dava mais pra esperar em casa já que ficar lá só iria me deixar mais cansada... Achei ótimo e voltamos todos...

Na volta quis passar no Mc Donald´s... Estava morrendo de fome e vontade de comer um lanche gigante... Apesar da fome não saboreei muito bem o lanche... As dores já estavam bem fortes e eu não achava mais posição pra ficar... Sentada era ruim, deitada era impossível, de cócoras eu me cansava, andando fiquei com medo de ficar cansada demais... Tentava dormir e não conseguia... Pedi pro seu pai e seu avô que fossem descansar porque eu precisaria dos dois bem de manhã...

Nas contrações, sempre bem fortes, eu procurava me concentrar na respiração e pensava que tinha que me abrir pra deixar você nascer... Foram bem difíceis essas horas aqui na sala de casa, de madrugada e sozinha, mas acabei achando uma boa posição sentada na frente do computador... Mandei um e-mail pra Lúcia (amiga da lista materna que estava quase com o mesmo tempo de gravidez que eu e mamãe do seu amiguinho Joaquim) contando em que pé estavam as coisas e depois abri o site do parto do princípio pra ler pela milésima vez os relatos de parto e me inspirar um pouco...

Quando deu 6 da manhã eu resolvi que não dava mais... A dor estava muito forte e achei que andar de carro com mais dor do que aquilo ia ser muito penoso... Chamei todo mundo e lá fomos pro hospital... No carro fui meio acocorada no banco de trás e abraçando o banco, morrendo de dor...

Passei pela mesma médica que tinha me atendido de noite e estava com 4 centímetros de dilatação... Nossa, que desânimo, tinha passado oito horas desde o último exame e eu só tinha dilatado mais 1 centímetro...
Resolvi que agora ficaria no hospital... Fui internada 6h40 e logo estava no quarto... Me deram uma camisolinha "linda" e colocaram um aquecedor no quarto... Estava muito frio e eu lá de camisolinha, meias e moletom nas costas... Pelo menos a bunda não ficava de fora... Seu pai logo veio ficar comigo e começamos os dois a caminhar pelo quarto...
O aquecedor deixava o ambiente mais confortável mas mesmo assim eu tremia, tremia muito... Batia o queixo, as pernas tremiam, os braços... Eu abraçava seu pai quando a dor apertava e isso ajudava a me aquecer... De vez em quando as enfermeiras vinham ver como caminhavam as coisas mas seguindo meu plano de parto ninguém interferiu em nada, não fizeram, tricotomia, não ofereceram anestesia nem me colocaram no soro pra acelerar o trabalho de parto...

Ficou combinado que eu pediria a anestesia se achasse necessário... Dessa forma, as enfermeiras apenas davam dicas pra me deixar mais confortável... Nesse meio tempo ouvimos seu coraçãozinho e ele batia bem forte... Estava tudo bem, era só esperar...

Mas aquela dor não parava, só piorava, e a frequência dela não diminuía... Continuava sem posição... Não conseguia ficar andando, nem acocorada, nem sentada, nem apoiada no seu pai... Tudo incomodava e as contrações eram bem doloridas e refletiam muito nas costas...

A enfermeira obstetriz então sugeriu que eu entrasse no chuveiro... Eram umas 9h da manhã... Nossa, que benção! Não queria mais sair de lá.... Tinha uma ducha forte que seu pai segurava bem nas minhas costas e uma barra onde eu segurava e me acocorava quando a contração vinha... Me senti revigorada com a ducha, passei mais de uma hora e meia lá...Seu pai ficou encharcado e cansado, com a mão doendo de tanto segurar a ducha, mas não saiu do meu lado e ainda contrabandeou chocolates alpino pra mim...

Voltei mais animada pro quarto, mas as dores eram muito fortes... O único alívio que eu tinha era ao apertar a mão do seu pai ou ao morder uma toalha e rosnar baixinho... Depois que você nasceu fui saber que era errado travar o maxilar como eu fazia, porque me travava ainda mais, mas era a única coisa que eu conseguia fazer naquela hora...

Lá pelo meio dia e meia serviram o almoço... Apesar da dor, sentia que precisava de energia e me forcei a comer um pratão com arroz, feijão, frango, purê de batata, suco e ainda gelatina de sobremesa...
Lá pelas 13 horas o plantonista mudou... A médica que tinha nos recebido na madrugada e nos acompanhado até então veio se despedir e desejar boa sorte e eu fiquei preocupada com o que aconteceria a seguir...

Mas o novo plantonista era super favorável ao parto natural, muito calmo e tranquilo e disse até que a mulher dele também queria um parto natural... Com um programa no computador ele fez uns cálculos e disse que pelo jeito meu parto aconteceria lá pelas 18h30 se continuasse evoluindo daquela forma e que estava tudo indo muito bem...

Respirei fundo, meio desanimada - a dor era demais, e não dava trégua, em 10 minutos chegava a ter 7 contrações fortes... Já faziam 17 horas que eu tinha contrações insuportáveis e os intervalos entre elas só diminuíam... Ainda teria que esperar até 18h30 com dor... Isso se o tal programa estivesse certo, né... Lá pelas 15h quis ir pro chuveiro novamente... Ficamos mais um tempão lá no chuveiro, eu e seu pai... Foi tanto que nem sei dizer quanto tempo...

Acho que já eram mais de 16h quando fiz mais um exame de toque... E foi aí que veio a surpresa... O plantonista disse que eu estava com dilatação total e que o bebê já estava bem baixo! Eu não acreditava, achei que ele estava brincando, mas ele disse que não era brincadeira não, que meu bebê ia nascer...

Ivan me abraçou e eu comecei a tremer como uma doida... Perdi o controle totalmente nessa hora... Não conseguia acreditar, não parecia que você ia nascer... Ele disse que dali a pouco eu ia começar a sentir vontade de empurrar mas eu não sentia nada disso, era só dor, dor, muita dor...

Começou uma movimentação ao meu redor, mais enfermeiras apareceram e trouxeram algumas coisas pro parto, colocaram uma touca e uma máscara no Ivan e o médico explicou que iriam passar um medicamento que serviria para limpar a vagina caso fosse necessária a epsiotomia, disse que era bem rápido mas que talvez ficasse um pouco gelado...

Só que quando a enfermeira passou o medicamento senti tudo queimando e gritei... Eles acharam que eu estava gritando por causa da contração, mas disse que estava ardendo e percebi que não era pra arder daquela forma... Eles então passaram um soro pra limpar mas continuava ardendo e queimando... Depois fui descobrir que tenho alergia à iodo e que aquele era um medicamento à base de iodo...

Agora eu estava com a dor das contrações e com a vagina queimando... Meu corpo tremia, eu batia os dentes e sentia que não era frio, mas nervoso... Minhas pernas tremiam, os braços, tudo, não conseguia me controlar... O Ivan me abraçava e me acalentava, mas não conseguia me controlar e comecei a chorar... Estava com medo... Mais um exame de toque, dessa vez dolorido por conta do ardor que eu sentia e mais uma surpresa: o médico anuncia que eu não estava com dilatação total, mas sim com sete centímetros...!!!

Nessa hora a bolsa estourou... Meu susto foi tão grande com aquela notícia dos sete centímetros que ele me explicou várias vezes o porque tinha se enganado com a dilatação e eu não entendi nada... Foi alguma coisa com o colo do meu útero que o fez se confundir... E então acabou tudo... A movimentação na sala diminuiu, as pessoas foram embora, a luz voltou a fica baixa como estava antes, a enfermeira trouxe uma compressa de gaze com soro pra aliviar meu ardor e parece que tudo estagnou novamente...

Só que nessa hora eu me desesperei... Queria anestesia, queria que me tirassem dali, queria que aquela dor passasse, chorava, pedia pro seu pai me ajudar e ele, desesperado, não sabia o que fazer... O médico ainda argumentou que eu estava fazendo tudo certinho, que ia conseguir o parto natural, mas eu não queria saber de mais nada, queria que tirassem aquela dor de mim de qualquer jeito...

Voltei pro chuveiro chorando... Seu pai me perguntou se eu tinha certeza mesmo que queria anestesia, e eu gritava que queria, que não aguentava mais a dor... Voltei pro quarto e sentei na cama...

A toda hora eu ouvia um chorinho de neném no corredor... Vários nenéns nascendo e nada de você nascer... Seu pai saiu um pouquinho pra dar notícias pras pessoas que estavam aguardando lá fora e seu avô entrou pra ficar comigo... Enquanto ele estava lá, na sala do lado um nenê nasceu... Ouvimos toda a parte final do parto... Parecia tão simples... A mãe gritou uma, duas vezes e pronto... Chorinho gostoso de neném... Eu queria o meu também! Queria você comigo, Samuel!

Nessa hora veio uma médica residente falar comigo... Disse que só faltava o meu neném pra nascer agora... Eu pedi de novo a anestesia e ela disse que a anestesista logo viria... Seu pai voltou pra ficar comigo e ainda consegui choramingar mais um pouco antes da anestesista chegar...

Ela estava bem alegre e me deixou mais animada... Estava um pouco decepcionada por não conseguir o parto natural, mas estava no limite das minhas forças... Nem senti a picada da injeção tamanha era a minha dor... Mas em breve tudo foi melhorando... Senti as minhas pernas formigando um pouquinho e logo a dor lancinante voltou a ser apenas uma dorzinha e eu consegui relaxar... Agora só sentia uma pressão forte, mas nada comparado ao que estava sentindo antes...

Daí pra frente, foi tudo muito rápido... Em cerca de meia hora estava com dilatação total e lá estava toda a equipe novamente... Agora era pra valer... Não quis sair da cama, não queria me mexer dali... Quando a contração vinha, eles me falavam para empurrar mas eu estava com muito medo, não sentia dor nenhuma, só a pressão, e não queria empurrar porque achava que ia me rasgar...
Sugeriram então a epsio e aceitei... Nessa hora as lembranças são meio estranhas, lembro do Ivan sempre do meu lado, das orientações dos médicos, deles me falando que estava indo tudo bem, que logo o neném nasceria, depois do plantonista dizendo alguma coisa pra mim e de repente começar a empurrar minha barriga... Foi uma manobra de Kristeller... (depois Ivan me contou que ele pediu licença porque teria que empurrar um pouquinho para ajudar o neném a se ajeitar na posição, mas eu não lembro dele falando isso e fiquei com raiva dele empurrar minha barriga daquele jeito, queria que aquele cara saísse dali a todo custo, seria capaz de bater nele!)...

E então, depois de mais algumas forças e de muita ajuda do seu pai que praticamente empurrou você junto comigo, você saiu! Saiu inteirinho de uma vez e não chorou... Fiquei meio assustada por não te ouvir chorar e nem consegui avisar a equipe pra esperar o cordão parar de pulsar e dizer que o seu pai iria cortar o cordão umbilical... Não deu tempo...

Cortaram o cordão e colocaram você na caminha quente do meu lado, enxugaram você um pouquinho e logo veio aquele chorinho lindo... Seu pai te olhava e me olhava emocionado e foi ele quem te trouxe pro meu colo, quentinho, ainda meio sujinho, e a gente ficou lá se olhando, os três... A enfermeira sugeriu que eu te oferecesse o peito, ajudou a arrumar sua boquinha... Eu te ofereci e você mamou um pouquinho no meu colo... Foi lindo... Ficamos ali enquanto levava os pontinhos da epsio e arrumavam a sala e seu pai ligou pra sua avó todo emocionado pra contar o quanto você era lindo...

Logo estávamos os três no quarto, cercados da família e muito felizes com nosso garotinho nos braços... E eu já nem lembrava mais da tal dor que tanto senti... Era só alegria de poder finalmente ver seu rostinho e ver que você era perfeito, lindo e a prova maior do nosso amor, meu e do seu pai...

Agradecimentos
Meus agradecimentos vão pro seu pai, Ivan, que esteve do meu lado durante toda a gravidez, não faltou a nenhuma consulta sequer e sempre cuidou de mim e de você... Ele que superou os medos e receios e me doulou durante todo o parto, que apesar de saber tanto quanto eu sobre gravidez e sobre bebês (quase nada), aprendeu tudo o que podia pra que o seu nascimento fosse o mais tranquilo possível, virou defensor ferrenho do parto normal e que me surpreende a cada dia com a dedicação e o amor que tem por você e por mim...

À nossa família, que nos apoiou de todas as formas possíveis... Aos amigos, sempre presentes de uma forma ou de outra...
Ao carinho e apoio de todas as meninas da lista materna... Não sei o que eu teria feito da minha gravidez sem vocês...

E para você, Samuel, meu pequeno, sei que você também foi muito forte e que passamos por essa juntos... Sua história começou assim e tenho certeza de que ela será linda e cheia de alegrias... Saiba que a vida é muito mais bonita agora que você está com a gente...

beijos da mamãe

Aurea - relato escrito a prestação e finalizado em 19/06/06

 

Voltar para Lista de Relatos

 

 
Copyrights: GAMA - Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução das imagens ou do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita.
Quem Somos
Onde Estamos
Mapa do Site
Fale Conosco
GAMA - Grupo de Apoio à Maternidade Ativa - Rua Natingui, 380 - Vila Madalena - 05443-000 - São Paulo, SP
Telefones: clique aqui - E-mail: CLIQUE AQUI