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Relatos de Parto
Nome: Crystiane Galante

 

As gestações

Tudo começou com uma gravidez não planejada, aos 17 anos. Relação instável, imaturidade e estresse de minha parte ocasionaram uma das experiências mais marcantes e difíceis da minha vida: o descolamento prematuro da placenta e conseqüente morte do bebê, horas após seu nascimento. Perda dolorosa, valorizada pela minha não participação no trabalho de parto.

Chegando muito tarde na maternidade, em período expulsivo e com uma grande hemorragia, "foi decidida" a realização de uma cesária de emergência. Com o nascimento do bebê em sofrimento, fui impedida de vê-lo, ninguém ao menos me disse se ele havia nascido, se estava vivo ou morto. Peguei uma bronca daquele pano azul que colocam na nossa frente nas cesarianas... Experência que me ensinou muito: não temos controle sobre nada, as coisas acontecem e só podemos aprender com elas. Com o tempo, toda essa experiência foi superada e digerida, e percebo o quanto aprendi e ainda aprendo com ela.

Após cinco anos, a surpresa de uma nova gestação, desta vez de um relacionamento mais maduro, com o meu atual marido. Contamos a todos, decidimos nos casar e tomei uma segunda rasteira: um aborto espontâneo aos dois meses de gestação. Nesse momento, me perguntei muito sobre minha real possibilidade de gerar um filho, muito frustrada e magoada com o que aconteceu.
Ainda assim nos casamos, e engravidei novamente três meses depois. Deus havia me dado uma nova chance, e eu não deixaria escapar. Empolgada como se fosse a primeira vez, saí, em 1996, em busca de um médico que realizasse um parto mais humanizado, mas com a minha história, só escutei palavras de desânimo : repouso total na gestação, a certeza de uma cesária, a proibição de dirigir. A minha realização como mãe e mulher não merecia o risco e o tempo precioso da maior parte dos médicos que atendem os convênios.

Decidi ao menos continuar com o meu médico, que achava possível (hoje não sei até que ponto) a realização de um parto normal após uma cesária. Eis um novo capítulo : as cesárias desnecessárias que se seguiram.

As cesárias
Com um pré-natal quase perfeito, com somente um pequeno sangramento aos 6 meses de gestação, segui até a 38ª semana de gestação do Hector, meu filho mais velho, hoje com 11 anos.
Num domingo, dia 09 de setembro, percebi a saída do tampão, e como já tinha uma consulta para o dia seguinte, fui tranqüila ao médico. Não sei dizer o qual a manobra executada por ele, só sei que foi a maior dor que senti naquele dia, que não terminou exatamente como eu desejava, a não ser pelo nascimento de meu filho, com saúde.

Às 20 h eu já estava no hospital, com 4 cm de dilatação. As contrações vinham tranquilamente, era mesmo um prazer saber que a chegada do meu filho se aproximava, e eu fazia de tudo para alcançar o meu tão sonhado parto, onde eu poderia ter a justa participação do nascimento do meu filho. No entanto, a paciência do meu médico se esgotou quando minha dilatação se estagnou em 6 cm. Com um sentimento muito grande de frustração, pois eu desejava muito continuar no trabalho, tive uma reação estranha à anestesia, mas o parto seguiu "bem". Havia algo mais importante em jogo que me fez superar este sentimento: o nascimento do meu 1º filho. E de novo aquele pano azul na minha frente...

A gestação de meu 2º filho aconteceu menos de dois anos depois, e como fui acompanhada pelo mesmo médico, aceitei a cesária com mais resignação, apesar de ficar bastante chateada com o fato dele ter arranhado todo o rosto sem que ninguém no berçário notasse. Foi uma gestação tranqüila, sem complicações e meu filho Ariel, hoje com 9 anos, nasceu muito bem.

Uma nova chance, oito anos depois
Sempre cogitamos um terceiro filho, mas, como todos os outros, tinha de ser de forma inesperada. Acredito que filho é como uma benção, uma mensagem divina.

E desta vez foi assim, sem desejos ou expectativas, a notícia foi recebida como uma agradável surpresa pelos meus filhos, e como uma novidade por mim e pelo meu marido. Naturalmente, talvez pela idade madura, tive uma gestação quase perfeita, sem muito ganho de peso, sem estresse, com uma percepção diferenciada das mudanças que foram acontecendo em meu corpo, no desenvolvimento do feto em meu ventre e sua estreita relação com o meu ser. A intimidade e a cumplicidade que se estabelecem nesta relação quase simbiótica são de tamanha delicadeza que é como se pudéssemos viver por um tempo de uma forma totalmente nova, passando pelas mesmas coisas de uma forma completamente diferente, nos permite um novo olhar ao nosso redor. A troca de influências entre eu e o bebê podiam ser notadas, observadas e mesmo compreendidas; momentos de alegria, tristeza, introspecção, toda ação gerava uma reação, numa direção ou na outra.

Não importava o sexo do bebe, seu nome, como ele seria; e sim o poder de algo maior se manifestando através de mim.
Minhas esperanças em relação ao parto normal ressurgiram quando uma colega de hidroginástica comentou que minhas cesárias eram muito antigas, o que favoreceria a tentativa de um parto normal, para que eu conversasse com meu médico à respeito dessa chance.
Pela internet encontrei um artigo do GAMA à respeito de parto normal depois de cesária e me contatei a doula para me informar melhor sobre esta possibilidade. Ao mesmo tempo, conversei com o meu médico que me surpreendeu dizendo que era possível tentar um parto normal, mas sem dar muita atenção às cesárias prévias pelas quais passei. Reacendeu-se em mim a esperança de fazer um parto normal.

Consegui me organizar para participar de uma palestra no GAMA sobre parto normal após cesária e do curso de preparação para o parto só em meados de junho, quando já estava com 32 semanas de gestação. Percebi desde então que teria que tomar uma decisão importante: ou desistia de tudo e fazia mais uma cesária, ou me prepararia para um parto totalmente natural. O fato de eu ter três cesárias aumentava as chances de uma ruptura uterina, que mesmo pequenas, são aumentadas com o hábito de se fazer induções com ocitocina durante os partos normais, por aumentarem muito a intensidade das contrações. A realização de uma anestesia também poderia prejudicar o trabalho, pois eu não perceberia os sintomas de qualquer ameaça de ruptura, o que poderia ameaçar a vida do bebe. Algo ficou muito claro naquele dia: a possibilidade de um parto natural era real e não um capricho - era algo que eu tinha direito.

O tempo era curto e eu devia tomar uma decisão, continuar com o meu médico, que eu duvido que levasse adiante a minha idéia de um parto totalmente natural, ou investir e acreditar na realização de um antigo sonho. Na semana seguinte ao curso eu tinha uma consulta agendada com meu médico, que coincidentemente foi desmarcada, sem que me fosse dada uma justificativa. Interpretei como um sinal e uma oportunidade de tomar uma decisão e mudei de médico; agendei uma consulta com o Dr. J, conforme a doula havia me indicado. Deste dia até o parto se seguiram ainda 8 semanas e a certeza de que tudo ia dar certo, claro, com uma pontinha de ansiedade.

Dias antes do parto

À partir da 38ª semana já sentia pronta para receber o meu bebê, tanto fisicamente, pois eu já começava a ficar cansada ao caminhar muito; quanto emocionalmente, pois já comecei a sonhar com o momento do parto.

Curiosamente, não tinha expectativas sobre o momento do parto, mas uma preocupação se eu conseguiria cumprir com o meu papel, deixar que as coisas acontecessem. E foi exatamente assim...
Dois dias antes do parto, comprei o livro "Se me contassem o parto" de Frederick Leboyer, um dos precursores do parto humanizado. Senti a necessidade de ler algo à respeito do parto, que poderia chegar à qualquer momento, e como que por pressentimento, devorei o livro de um dia para o outro. A forma poética com que narra todo o trabalho, como se ele mesmo já tivesse vivido tudo aquilo, me tocou profundamente e de alguma forma me preparou para o que eu viveria em breve. Segue um trecho que me marcou muito: "Ao entrar em trabalho, a mulher entra "em outra dimensão", outro estado de consciência, o tempo passa a correr de outro jeito. Desse outro "jeito do tempo" quem não está dando à luz não faz a menor idéia. Eterno presente? Exatamente.

Se já no fim da gravidez - desde que o milagre aconteça, pois é milagre essa mudança de estado de consciência, milagre que a nem todas as mulheres é dado conhecer - portanto, se no tempo da gravidez, a mulher já tiver entrado nessa espécie de estado de graça, ela já se sabia protegida, sabia que nada a afetaria, feriria, e que estaria a salvo, livre de angústias: sem nada por esperar, nada por desejar, pois ela tem tudo. Nada por esperar, nada por recear, não será esse o gosto da eternidade, o sabor da absoluta felicidade? E a ordem reinará, até no centro do furacão. "

O parto

Foram 37 horas do início das contrações até o nascimento do Iago, mas tudo o que se passou neste período será difícil de descrever, mas tentarei ser o mais fiel possível.

Eram 17h40 quando comecei a perceber que as contrações vinham de 20 em 20 minutos, mas não falei nada a ninguém com receio de ser um alarme falso. Ainda fui à uma reunião, mas em duas horas, as contrações leves já estavam com intervalo de 10 minutos. As contrações ainda eram agradáveis, eu conseguia participar do que acontecia à minha volta, e só acompanhava as ondas de contrações e seu ir e vir.
Por volta das 22h00, as contrações aumentaram de intensidade, mas não de freqüência, e contactei o médico, que me mandou para casa descansar, para poupar energia para o parto. Praticamente não descansei a noite inteira, contando o intervalo entre as contrações, que variavam entre 6 e 10 minutos.

Durante toda a 6ª feira tive contrações fortes, momentos em que tinha que parar, respirar e tentar relaxar, voltando em seguida a fazer as coisas do dia a dia.

Fui conversando com a doula no decorrer do dia e com meu marido, que ficou todo o tempo tranqüilo ao meu lado. Ambos foram essenciais à minha entrega ao trabalho, agradeço à eles de todo o coração.

Por volta das 15h30, a doula pediu que eu contasse quantas contrações eu tinha em uma hora, e quantas vezes o bebê se mexia. Às 17h liguei pra ela: tinha tido 12 contrações, e o bebê havia se mexido 9 vezes. Ela teve a certeza que eu já poderia me preparar para ir ao hospital, perto das 20h. Cheguei ao hospital já com meio caminho andado: 5cm de dilatação. Fiquei muito feliz e acompanhei atentamente as mudanças que foram acontecendo aos poucos, com o passar das horas.

As contrações se intercalavam - hora vinham com força total e meu corpo obedecia a contração, hora vinha mais amena, suave e até mais curta. É como se o corpo tivesse uma inteligência própria, e soubesse como fazer, alternando contrações intensas com contrações tranqüilas. E eu, finalmente, apesar de não estar fazendo nada, me sentia parte de todo o processo, somente por permitir e suportar que ele acontecesse em mim. E foram algumas horas de muita concentração e preparo para um momento completamente desconhecido para mim: a fase de expulsão.

Por volta das 2h30 da manhã, passei da sala de pré-parto do hospital S.L., para uma sala especial, mais espaçosa e aconchegante, cheia de "estrelas" coloridas no teto, o que me ajudou a me concentrar nas contrações. Neste momento, eu já estava com 7 para 8 cm de dilatação e tudo caminhava bem, então Roti e a doula puderam descansar um pouco. Eu mesma pude até cochilar entre as contrações... até umas 4h da manhã, quando me assustei com a mudança no padrão das contrações.

Lembrei-me então do que havia lido no livro do Leboyer, que dizia que a primeira parte do trabalho era do signo de água, onde as contrações são como ondas, que explodem nas areias e se recolhem em seguida para retornar instantes depois. Já a fase de expulsão, está sob o signo do fogo, lembrando um vulcão em erupção. Reconheci a mudança, mas me senti perdida, amedrontada, só. Não conseguia combinar a respiração, meu corpo tomava vida própria, fugia do meu controle. Roti percebeu minha mudança nas respirações e foi chamar a doula, pois achei que algo de diferente estava acontecendo. Roti me tranqüilizou e disse algo que mudou minha postura diante do que estava se passando: que eu ouvisse meu corpo e o deixasse livre para fazer o que tinha de ser feito, que não oferecesse resistência nem pensasse sobre o que estava acontecendo. E foi o que fiz.

Passei para a cama, sentada sobre uma toalha. Em três contrações a bolsa se rompeu. Eram 5h15 da manhã. Nas três seguintes todo o líquido saiu e a pressão diminuiu bastante. O intervalo entre uma contração e outra era muito curta, e quando as pressentia, pedia o amparo do Roti, para me dar mais segurança. Ainda tive algumas contrações em outras posições, mas comecei a sentir câimbras nas coxas. Foi quando a doula sugeriu que eu me sentasse numa cadeira quase de cócoras. Se por um lado, me sentia esgotada, por outro, me sentia completamente envolvida no trabalho, sentindo que o momento se aproximava.

Durante as contrações, percebia que nada tinha a fazer, a não ser permitir que algo se fizesse em mim. Não descreveria as sensações como dor, mas como uma força a qual eu não exercia nenhum controle.

Sentada na cadeira, acredito que em três ou quatro contrações o bebê nasceu. Na primeira, a cabeça apontou ao fundo e pude tocá-la, sentindo uma temperatura diferente da minha. Quando a cabeça saiu, senti uma ardência muito grande, e em seguida, soprei para que os ombros saíssem. Instantes depois ele foi colocado em meu colo e começou a respirar naturalmente, abriu os olhos e me olhou. Dr. J perguntou quem queria cortar o cordão umbilical, e eu mesma cortei, quando ele já não pulsava mais. Enquanto o bebê era atendido pela pediatra, senti uma última contração para expelir a placenta. E assim tudo se fez.

O que me marcou bastante foi a disposição que tive para prosseguir de forma tranqüila durante todo o trabalho, consciente do meu corpo, sem me identificar com pensamentos e emoções negativas. Durante praticamente todo o tempo eu fui as sensações do meu corpo. E faria tudo novamente.

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